A imprensa e Bolsonaro

Para o Agora RN

Por Daniel Menezes

O pré-candidato à presidência da república, Jair Bolsonaro (PSL), participou de duas sabatinas nos últimos dias – uma no programa Roda Viva da Tv Cultura e outra no canal Globo News. As forçadas de bastão históricas e visão autoritária do chamado “mito” pelos seus seguidores não representaram nenhuma novidade. O dado esclarecedor foi o modo como a imprensa majoritariamente esqueceu de sua tarefa maior – a de expor o projeto do postulante ao cargo máximo do país. Ou a falta dele.

As perguntas foram quase todas levadas para um terreno pantanoso em que Bolsonaro conseguiu se sair muito bem e produzir uma comunicação aparentemente verossímil. Sua preocupação era transmitir uma mensagem para o eleitor amendrontado pela vida predatória que se banalizou, sobretudo nos grandes centros urbanos. Queria também acessar quem realmente acredita – e não são poucos – que perdeu direitos porque, a partir dos últimos anos, minorias desprivilegiadas tiveram suas pautas ao menos publicizadas e, ainda que com limitações, debatidas e iluminadas pela esfera pública. E ao falar de porte de armas, ditadura, endurecimento das leis e mais poder (sic) para as polícias ele logra êxito em sua jornada. Ao atacar projetos de cotas para negros historicamente tratados como subcidadãos e mulheres, algumas das quais ceifadas pelo androcentrismo social, atingiu o coração de quem mira num espantalho. Qualquer pessoa que entreviste o atual deputado federal não poderá esquecer de tais questões. No entanto, uma conversa não pode se encerrar aí.

Na verdade, a mensagem que a maioria dos jornalistas transmitiu foi que estavam mais preocupados em demarcar uma distância de Jair Bolsonaro do que de sabatiná-lo. E há uma razão clara para tanto. O apoio preponderante por parte da imprensa a uma pauta irracionalista e antipolítica, desde 2013, ajudou a consolidar o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, uma crise política sem precedentes e a desavergonhada emergência do subterrâneo não democrático até então em estado latente no país. A ação em bloco dos comunicadores nos dois programas foi uma tentativa de negar a paternidade da criança. Um titubeio que o ex-capitão agora presidenciável soube aproveitar muito bem. Afinal, ao contrário do que muita gente imagina, ele não é burro.

A imprensa já teve uma boa amostra do que não deve fazer para não cair na armadilha bolsonariana. E se quer estabelecer uma fronteira civilizatória, que comece pelo seu passado. Diante do obscurantismo e dos truques de uma falsa verdade ornada de atratividade desejosa, a hora é do velho e bom jornalismo.

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