A UFRN recua, expõe a FUNPEC e passa recibo para o bolsonarismo

Caro leitor, imagine a situação. Ao invés de comemorar a posse do novo reitor eleito no teatro Riachuelo, a UFRN decidisse fazer num equipamento do governo do RN. Certamente, também não passaria em branco. A nova administração receberia insinuações públicas de alinhamento com o PT que administra hoje o RN, enquanto que nas redes sociais as fake news circulariam. Se fizesse no ginásio, alguns reclamariam do aluguel das cadeiras de plástico e do som. Parece pouco crível ou não?

Os gestores da UFRN já deveriam ter entendido que há uma onda obscurantista de ataque às universidades. E, contra tal radicalismo, não há como dialogar, nem muito menos tergiversar. É preciso trabalhar com a informação clara, sem dúvida; mas com a plena consciência de que os tiros virão do outro lado, sairão de uma minoria ativa e barulhenta. É o sinal escancarado dos tempos.

A universidade é vítima de quem deseja retornar a uma época – nunca existente só que convenientemente glorificada – da tradição, dos costumes fixos e inquestionáveis. É uma retrotopia, como bem cunhou Bauman.

A bandeira é empunhada desde o evangélico radical, que caracteriza qualquer avanço incontornável da modernidade como um problema; até aquele homem médio, que tem horror a qualquer tipo de leitura ou conversa equilibrada, em que duas pessoas divergem e, ao mesmo tempo, se respeitam. Ele se ressente de perder espaço e/ou ter de ouvir um profissional, para ele, “engomadinho, cheio de frescura e de fala difícil”.

O dado é que, ao que tudo indica, isto ainda não está claro para os gestores da UFRN. Recém pressionados por correntes de redes sociais e alguns veículos, recuaram e cancelaram a posse do novo reitor marcada para ocorrer no teatro Riachuelo no próximo dia 03.

Era – ou melhor, é – hora de mostrar tudo que a UFRN fez, produz e representa. Se afirmar. A solenidade de um reitor não é uma coisa menor e recebe milhares de alunos, professores e servidores. Quem não sabe disso, certamente é quem nunca ligou – nem deseja apurar – minimamente para conhecer o que acontece e quais são os ritos de uma universidade.

A UFRN até resistiu no início. Publicou uma nota mostrando que o gasto viria da FUNPEC, após aprovação em conselho deliberativo da fundação mantida com recursos públicos e privados. Porém, logo em seguida, cancelou o evento. Deixou a funpec e seu conselho sem roupas na rua.

O que os gestores acham que agora irá acontecer? Que de fato existia preocupação com os gastos por parte de alguém? Não sacaram que era mero subterfúgio para desgastar a imagem da UFRN e tentar atacar os protestos ocorridos contra os cortes na educação aqui no RN? A assembleia legislativa do RN, poder sempre presente nos jornais pela perda de orçamento e pela necessidade de enxugar seus gastos, fez a posse do seu presidente no mesmo local. Quantas reclamações foram ouvidas? O Tribunal de Justiça, o eleitoral, do trabalho também empossaram seus presidentes no Riachuelo. Até o João Doria recebeu da câmara municipal do Natal, pelos seus grandes serviços prestados (sic) à Natal, o título de cidadão natalense por lá. E nem ponto de pauta virou.

O flanco foi aberto e o recibo se encontra na mesa. Agora cabe só aguentar. Se uma universidade não pode fazer uma solenidade máxima a sua altura, por que alguém dentro da instituição acredita que não haverá queixas contra pagamento de viagem para um docente ir a um congresso ou outro custo com o desenvolvimento de atividades de pesquisa e extensão? Enquanto o bolsonarismo tiver alguma força, a fatura vai aumentar. É aguardar e conferir.

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