Ameaça à liberdade de expressão na UFRN

Eu publiquei aqui que considerava, não apenas a disciplina sobre o “golpe” a ser ministrada na UnB de Brasília ruim, como via como modismo inapropriado a abertura da mesma matéria aqui na UFRN. Enquanto na UnB sequer há literatura especializada listada na programação, centrando-se fundamentalmente em textos de blogs impróprios para o ambiente, a UFRN procurava surfar na onda com uma escassez de planejamento ainda mais gritante. É direito de qualquer cidadão criticar e fomentar o debate sobre o funcionamento de uma instituição pública mantida com impostos do contribuinte. Qualquer um pode fazê-lo da perspectiva que achar conveniente. Sociedades abertas crescem assim.

Agora, tentar impedir, por via judicial, que a disciplina aconteça na UFRN, como fez o Movimento Brasil Livre do RN, é um atentado à liberdade de expressão. Uma medida iliberal. Não é a justiça que deve decidir o que pode ou não ser discutido dentro de uma universidade, a não ser que direitos estejam sendo feridos. Ora, obviamente não é o caso.

A argumentação de que há uso partidário da instituição na situação é descabida. Há, isto sim, uma adesão acrítica a uma tese sobre um dado acontecimento. E, cabe mencionar, é meu ponto de vista e, talvez, de outras pessoas. Se um conteúdo carece de fundamento, não é proibindo sua presença na universidade que ele será esclarecido, refletido, revisto ou mesmo confirmado. Isto tem relação com o trabalho aberto e cotidiano nos muros da instituição e fora dela.

Ora, se a perspectiva judicializadora vingar, não é só a disciplina de extensão sobre “golpe” que deverá ser fechada, mas muitas outras. Talvez, todos os cursos de ciências humanas, já que eles articulam a formação discente com a confrontação de teses, escolas e paradigmas teóricos sempre em vias de (re)construção. A depender do ponto de vista – não quero resumir ciência ao olhar de cada um, apenas mostrar que não há consensos fechados e imunizados -, será “absurdo” trabalhar outras teorias, análises e ângulos sobre não poucos acontecimentos.

O MBL joga para sua galera. É uma ação típica em que uma liderança de um grupo se fortalece em seu meio, atacando algo significativo externo do que se considera um oponente. Ok. Mas a universidade não pode ser atingida por essa maneira de contrair legitimidade na luta política. O MBL, que tem “livre” em seu slogan, deve procurar se libertar do seu reiterado desejo de controlar tudo na sociedade, inclusive o pensamento. Afinal, não estamos mais em 1984.

Deixe um Comentário