Cartas na mesa

Do Segunda Opinião (Insight inteligência)

Por Wanderley Guilherme dos Santos, Cientista Político (UFRJ)

A euforia petista facilita demarcar divergências em relação a outras vertentes progressistas. Não é em momento de depressão ou de reduzido prestígio social do PT, mas quando dirigentes e militantes antecipam possível vitória no primeiro turno de Lula/Haddad, que faço um descarrego pessoal.

O vício de origem do processo que encarcerou o candidato Lula/Haddad não basta para cobranças de adesão a qualquer decisão emanada da direção do PT ou do próprio Lula. Esse é um preço similar às imposições de monopólio natural, supostamente implícito na condição do vitimado. Mas a injustiça não garante soberania indisputada a injustiçados. A coação é um preço aberrante, tratando-se, na verdade, de um assalto de Lula e apóstolos contra os insubmissos à jurisdição monárquica de algum predestinado. Seria a contrapartida civil dos gênios iluminados do Supremo Tribunal Federal. Rejeito a ambos.

O político Lula, vítima da notória e tácita conspirata do Judiciário, é o mesmo Lula que persegue de maneira implacável como um mouro, togado honoris causa, disposto a cobrir elevadas apostas, sacrificando quadros de seu partido, promovendo acordos clandestinos com PP e PR  para destruir oportunidades ao surgimento de outras lideranças populares.

Lula, pessoalmente, foi tenaz na urdidura do isolamento de Ciro Gomes, e mostrou-se hospitaleiro um tanto inescrupuloso a figuras e partidos que depuseram Dilma Rousseff. A versão dos fanáticos é a de que os ladrões e golpistas se arrependeram e Lula os perdoou. Mas não por generosidade dos novos centuriões. A prioridade de Lula e do PT nacional, que é o apelido do PT paulista, era e é a destruição da candidatura Ciro Gomes (ora, um cearense!). Para haver novo candidato paulista era indispensável que só houvesse rebotalho fora do PT paulista. Não é, obviamente, o caso de Ciro Gomes.

Eleitores de boa fé acreditaram que a exigência da cabeça de chapa era anseio partidário, sem qualquer explicação para a sacralidade de tal mandamento. Durante toda a embromação para a escolha do candidato “Lula”, da qual um esperto baiano ficou longe, a questão real sempre foi limitar a escolha da embuçada de Lula aos quadros do PT paulista. Fernando Haddad, claro. Lula é nordestino de nascimento e político paulista por conversão, inseminado pelo preconceito contra Getúlio Vargas, do qual nunca se desfez, e orgulhoso da predominância da indústria e dos bancos paulistas, com os quais se senta e se sente à vontade para negociar.

Há um aspecto inédito do fenômeno Lula: a capacidade de transformar homens e mulheres de reputação e história em meninos e meninas de recados, transformação aceita como promoção a estafeta: “o Lula mandou dizer…”. Aos sólidos opositores ao golpe, que não trocam a dignidade pelo poder, enrubesce testemunhar a subserviência e abdicação da autonomia de profissionais competentes, antes empenhados em formulações originais sobre o País. Pior: compactuam conscientemente com a mais intolerante máquina de intimidação e de difamação dos que se recusam ao beija-mão de chalaças; propõem e promovem censura nos blogues, outrora democráticos, e em todos os meios de comunicação, ocasionalmente infiltrados. São meganhas mentirosos, como os da ditadura militar, omitindo, desmoralizando, coagindo e, sem o saber, morrendo com Lula. Nunca mais terão direito a opinião pessoal.

Lula sabe que agoniza politicamente, aconteça tudo ou aconteça nada em outubro de 2018. E independe do Judiciário. Lula agoniza porque todos os grandes líderes terminam superados pela irreversível passagem do tempo. Talvez a revolta contra o fim inevitável se encontre na origem da obsessão instalada em sua nova concepção de mundo, expressa em obsoleto programa de governo. Lula não está à altura de Lula.

 O programa do PT é caduco e, em certos aspectos, tão reacionário quanto o do PSDB, na lengalenga de quem vai pagar mais imposto, mantido o equilíbrio fiscal, por suposto, na repetição de programas sociais altamente louváveis, mas indefesos, como se viu, sem reflexo institucional protetor. Acabar com a miséria exige bem mais do que aumentar conjunturalmente a renda dos pobres.  Os intelectuais que o acompanham, sobretudo os subservientes do jornalismo alternativo, ignoram a formidável extensão do drama do Brasil, que ingressa no circuito do ocaso da democracia representativa sem tê-la instituído integralmente, e exposto aos estertores da revolução industrial, que não completou. Profundamente desamparado diante da perspectiva de se perpetuar como copeiro das nações produtoras de tecnologia pós- revolução digital, o Brasil é um ente coagido por negociatas, ameaças, ações e omissões predatórias, a espremer-se entre um caudilho que mudou de lado e espumantes nulidades em rede.

As cartas, porém, não foram todas jogadas.

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