Com o governo federal falando uma coisa, o governo estadual outra e os prefeitos em silêncio, o contexto político no RN aumenta a chance de caos diante da pandemia

Filme repetido de 2020. Estamos diante novamente de uma configuração, que pressiona o governo estadual, e alivia para os prefeitos da mesma maneira que no ano anterior da pandemia. Os hospitais estão lotados com pacientes covid e a falta de coordenação piorará tudo.

Por incrível que pareça, o discurso sobre distanciamento social é fundamental, mas impopular. O novo normal contempla 1500 mortes/dia e tudo bem. A vacinação a conta gotas não trará efeito significativo em curto período.

Diante do inchaço hospitalar é sedutor debater a abertura de mais leitos, mas falso em sua extensão porque efetivamente não resolve. É impossível enfrentar um aumento de casos de infecção pelo novo coronavírus com mais 10 ou 20 leitos. Claro, ajuda. Mas sem quebrar a escalada de contágio, o sistema vai esfacelar do mesmo jeito.

Ainda assim, dizer que tem de fechar o comércio e fiscalizar tira voto e gera forte reação das associações comerciais e de seus braços interligados à imprensa. Por isso os prefeitos deixam o discurso pra o governo estadual.

Já o Governo do Estado se vê obrigado a agir porque a rede é praticamente toda estadual e será nela que a bomba irá estourar. O comitê científico do RN pediu o fechamento de bares, escolas, etc, por 14 dias. O ponto aqui não é a necessidade, mas a força política necessário para a execução da ação.

Os prefeitos sabem do contexto adverso e se calam, esperando o Governo engolir o desgaste. Falam em leitos e remédios como se fossem os pais da solução e não da notícia ruim. Paliativos ou mera enganação, como no caso do remédio pra piolho. Foi assim também em 2020.

O cenário que se avizinha é de tragédia, pois o isolamento social é importante. Porém, é impossível de ser executado, já que temos uma informação dada pelo governo federal, que manda todo mundo viver normalmente. O informe do Governo do Estado, que diz o contrário e o silêncio dos prefeitos. Diante disso, clamar para a consciência do indivíduo é inócuo. A ambiência informacional o deixa em um estado de natureza em que o horizonte é o interesse individual.

Do ponto de vista político e do combate à pandemia, o governo estadual pode diminuir o desgaste fazendo o que executa – chamar os prefeitos à responsabilidade conjunta. Mas note que Natal não se alinha, não vai as reuniões e usa discurso distinto (leitos + ivermerctina) numa clara estratégia de deixar o ônus com o Estado.

A prefeitura do Natal, ao invés de advogar pelo isolamento e fiscalização, anuncia que vai pedir 10 leitos ao governo federal. Ou seja, publicizou como ação um solicitação. Com o ministério da saúde abrindo mão de suas prerrogativas, o cenário político é de cada um por si.

Espero errar, mas o provável é que, logo logo, o RN – principalmente Natal e sua região metropolitana – ingresse em situação de caos, a exemplo de outros estados brasileiros.

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