Como funciona a pauta dos valores e costumes no bolsonarismo

COMO FUNCIONA A PAUTA DOS VALORES E COSTUMES NO BOLSONARISMO

A agenda dos costumes, ou a chamada pauta moral, é um dos pilares fundamentais do bolsonarismo. Em tal retórica existe aquilo que Bauman chamou de retrotopia. Uma busca radical pelo retorno ao passado como forma de utopia e reorientação de rumo para os agentes perdidos diante do turbilhão de mudanças da modernidade.

O desejo é objetivo: reestruturar a família patriarcal, pré-determinar novamente o papel de submissão da mulher na sociedade e esconder qualquer traço, manifestação e debate lgbt. Uma forma de levar essa discussão novamente para o armário. As políticas compensatórias (para negros e/ou pobres) representariam uma afronta contra quem trabalha. Na prática, é impossível operar o movimento esperado. Nem existe esse passado de glórias imaginado, nem é possível obviamente voltar a ele. Mas a tentativa produz consequências concretas.

Na pauta dos costumes ainda entra o tema da segurança. Nesse discurso, a violência aumenta pela questão de uma suposta permissividade institucional, começando pela família, passando pelas escolas e universidades e chegando até a imprensa. O bolsonarismo alia um suposto resgate dos valores perdidos à paz social.

Impressiona também o modo como o bolsonarismo é sinônimo do anti-intelectualismo indisfarçado. O estudioso, quem tenta fazer uma reflexão mais ampla sobre qualquer assunto é enquadrado como o resultado de valores corrompidos. Seria o antônimo do homem médio simples e verdadeiro, sem as “frescuras” de quem leu livros.

Tanto é que, mesmo o bolsonarista mais fiel, aquele que fez de tudo pelo capitão durante a campanha, se ousar produzir qualquer reflexão crítica, é logo posto no quadro dos inimigos.

Em resumo, há aqui uma agenda de grande ressentimento social alimentada por uma base do pensamento selvagem que funciona na hierarquização cognitiva do sagrado x profano, homem de bem x criminoso, ser da família x lascivo moral, heterossexual x homossexual, branco x negro, homem x mulher, trabalhador x vagabundo, tradição x modernidade, verdadeiro x falso, simplicidade x frescuras corrompidas, amigo x inimigo. Antes sem grande espaço na esfera pública, o intelectual orgânico bolsonarista se legitima pela capacidade que demonstra de alimentar essas hierarquias e manter aceso o ressentimento social que sustenta o seu líder.

Sonhar com uma moderação de Bolsonaro no governo representa uma ingenuidade talvez não encontrada em crianças do jardim da infância (apesar de que alguns setores da imprensa agora demonstram espanto diante do extremista que age de forma extremista). Bolsonaro depende da produção de inimigos. O presidente e seu grupo seguem racionalmente conscientes disto. Ele elevou o nós x eles a uma condição em que o diferente não pode existir, pois é a razão de toda a maldade de uma sociedade. A construção de bodes expiatórios dará a tônica pelos próximos quatro anos.

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