Disciplina sobre o “golpe”: Max Weber seria considerado um inimigo da autonomia universitária

“A tarefa do professor é servir aos alunos com o seu conhecimento e experiência e não impor-lhes suas opiniões políticas pessoais” Max Weber

O eminente sociólogo alemão Max Weber, que combateu os seus pares dados a juntar impressões políticas com a atividade docente, seria acusado de desrespeitar a autonomia universitária se dissesse que disciplinas com o viés político de hoje são tentativas de validar opiniões partidárias. Desde que o ministro Mendonça Filho, em pleno fim de mandato, tentou de maneira autoritária impedir o exércicio de apresentação de um curso na UnB, um sofisma foi plantado. A estratégia consiste no seguinte: utilizar uma ação política, mais uma vez para não pairar dúvida, autoritária de um membro do governo para angariar licença e vestir a camisa da militância dentro da sala de aula. A chamada liberdade de cátedra vira subterfúgio para não ser inquirido do ponto de vista crítico sobre o conteúdo, rasgadamente militante, agora alçado a condição nobre de resistência em favor da academia. Setores partidários e sindicais com livre entrada nas universidades usaram a brecha deixada pelo ministro da educação para impor uma narrativa política, que só faz sentido na boca de um militante.

E na estratégia até agora bem sucedida, se você apontar que as matérias espalhadas nacionalmente não têm bibliografia, tem ementa vaga e parte de um linguajar partidário, o enquadramento de autoritário se torna consequência. É uma maneira de silenciá-lo. O gatilho está em se valer da autonomia universitária, como se ela fosse um valor absoluto e apenas por um lado; e não protegesse também o legítimo direito de debater e até criticar os conteúdos que são propostos nas graduações e pós-graduações do país. A autonomia universitária foi re-semantizada, diante do cenário, para virar convenientemente licença para fazer militância em sala sem questionamentos.

É como se dissessem: “um ministro nos atacou por fazer política. Então, vamos aproveitar a situação para fazer mesmo”. Só que não é porque o Mendonça Filho fez o que fez que a impostura deixará de conter suas impropriedades.

Voltemos a Weber. Assim diz ele sobre a situação que se tenta impor hoje nas universidades como uma forma de resistência:

“É imperdoável a um professor valer-se dessa situação para buscar incutir em seus discípulos as suas próprias concepções políticas, em vez de lhes ser útil, como é de seu dever, através da transmissão de conhecimento e de experiência científica.”

A sala de aula é desigual e, se algum professor quer impor suas ideologias, procure espaço mais igualitário, sem recursos públicos, em que o aluno possa contestá-lo. No que defender o exame de tal ponto de vista significa se alinhar ao ministro censurador? A confusão interessada tem sua base aí.

O problema não se encerra. Há um desenrolar prático perigoso. Ora, se militantes de esquerda, hoje coincidentemente professores, tentam banhar um debate partidário em águas acadêmicas, o que impedirá que defensores de ideologias conservadoras não façam o mesmo nas graduações e pós graduações brasileiras? O precedente foi criado. Não será de estranhar que amanhã surjam cursos e matérias sobre família, ideologia de gênero e cura gay. É o que tem tudo para ocorrer com a suspensão da principal coerção acadêmica contra tal tipo de iniciativa: o debate franco sobre a qualidade crítica dos conteúdos trabalhados nas universidades.

Outros reclamarão o direito à delinquência intelectual. Aí será difícil fechar a porta e reclamar. No fla-flu institucionalizado será apenas questão de tempo.

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