É preciso urgentemente falar sobre anabolizantes: o seu uso diz muito sobre que sociedade estamos construindo

A Polícia Civil do RN deflagrou uma operação hoje (29) – a hipertrofia – em que fechou um laboratório caseiro de anabolizantes em Natal. É o segundo do ano passado para cá.

As chamadas bombas são fortemente negligenciadas socialmente: não há debate aberto, franco, nem muito menos políticas claras a respeito. Sabe-se apenas que sua comercialização indiscriminada é proibida. Por que não se fala diuturnamente sobre esteroides e a cultura que os tornam banalizados em qualquer espaco de treinamento físico?

Apesar do silêncio público, quebrado de tempos em tempos, basta fazer uma inscrição numa academia, para saber de sua existência e conhecer pessoas que utilizam tais substâncias. Os praticantes de atividade física, de competições, etc, chegam às bombas munidos por uma lógica de curto prazo em que buscam resultados imediatos, carregam consigo um narcisismo compulsivo e uma incapacidade crônica de lidarem com o fracasso, ainda que seja numa coisa secundária, que é, por exemplo, um campeonato amador de Jiu-Jitsu ou de Crossfit.

A geração de hoje quer tudo para ontem, não sabe lidar com a espera. O bem estar que a superação no esporte promove é logo substituído por uma insegurança alicerçada no “eu devo poder tudo”. Desenvolver-se fisicamente leva tempo, principalmente para quem não é atleta profissional. Mudar o seu corpo requer anos de treinamento, alimentação adequada e vida regrada. É uma escolha por uma alteração no estilo de vida. Não são poucos os que procuram uma via mais rápida.

A disseminação dos anabolizantes nos ensina que os jovens de hoje não são preparados para a derrota, para o fracasso ou simplesmente, num microcosmo que o esporte representa na vida muito mais ampla de uma pessoa, que ele não entende que não precisa ser o melhor em tudo. O anabolizante é o escudo para a insegurança. Físicos simétricos e musculosos escondem mentes sem hipertrofia para os percalços de qualquer caminhada.

E se engana quem imagina existir questão de gênero no uso dos anabolizantes. É uma prática compartilhada entre homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais.

A hipótese aqui é que o uso dessas drogas ilícitas anda de mãos dadas com as redes sociais, que acabaram de vez com a separação entre o que é a parte pública da pessoa de sua vida privada. Poucos músculos significam fraqueza moral. A ausência de uma cintura fininha termina se transformando e sendo encarada como uma falha de caráter incapaz de ficar restrita no antes protegido ambiente doméstico do indivíduo. O Instagram, fortemente baseado na imagem compartilhada, é a subversão mais completa das últimas barreiras de proteção do self.

Falar de anabolizantes não significa dissecar pessoas fúteis. Representa uma pobreza analítica sem tamanho imaginar o problema de tal forma. Debater o uso deles permite refletir sobre que tipo de sociedade estamos construindo. Talvez, olhar um pouquinho para o abismo de cada um de nós. Atribuir amplo sentido problematizador a algo tão naturalizado não é tarefa fácil, mas urgente. Este mundo das academias não nos é alheio.

Deixe uma resposta