EDITORIAL – Quantas vidas da periferia valem uma da zona sul?

EDITORIAL – Quantas vidas da periferia valem uma da zona sul?

É uma pergunta aparentemente retórica, mas que tem sua validade. Explico. As fortes estatísticas sobre homicídios em Natal e no Rio Grande do Norte não ganham rosto, nem profissão (um mecânico morto ou vítima de atentado não recebe uma nota de solidariedade, como fizeram os médicos no momento em que agem politicamente pressionando as administrações públicas para que não implementem ponto eletrônico), normalmente quando os mortos não vêm do eixo sul de Natal. E não é de hoje.

O crescimento da taxa de assassinato não começou a semana passada. Inicia sua escalada a partir do ano de 2004 e sobe mais de 1000% até 2014, de acordo com o Atlas da Violência. Há, posteriormente, uma reversão que torna a subir em seguida. Foi uma situação local, estadual e nacional historicamente negligenciada. Presídios sucateados, delegacias desabastecidas, falta de inteligência, carência nos serviços públicos, sistema prisional abarrotado, justiça lenta, etc. Um descaso com uma bomba prestes a explodir. Enquanto morriam pessoas em Bom Pastor ou Nova Natal o tema parecia não despertar grandes elocubrações. Autoridades até ontem responsáveis diretamente pela (in)segurança pública do RN hoje aparecem como solução eleitoral contra o estado de crise alcançado.

A abordagem tem sido essa, inclusive da própria mídia na qual, de alguma forma, também este pequeno blog faz parte. O espaço destinado a algo que ocorre numa farmácia em Lagoa Nova ou em uma galeria de Natal, “do lado de cá da ponte”, é infinitamente maior do que o atribuído a um crime semelhante em terreno mais distante dos cafés jet society. O debate, quando levado por esse percurso, só, de fato, cria pânico em grupos de whatsapp, palcos perfeitos para meias-verdades ou inverdades inteiras, e pouco contribui para equacionar devidamente o revés pelo qual o Rio Grande do Norte atravessa.

A violência é um problema local, estadual e nacional em que não há como minimizar tal estado de coisas pela via de um salvador da pátria governamental. Requer iniciativas articuladas de toda uma sociedade, sem seletividade, nem gestação de cenários que parecem importar mais do que outros. É preciso envolvimento do Estado, da sociedade civil organizada e revitalização dos serviços/espaços públicos. Já se sabe, por exemplo, que quando um adolescente evade da escola, a tendência à criminalidade aumenta consideravelmente.

E os números, sempre atualizados como uma corrida de cavalo semelhante a um índice de desenvolvimento de uma eleição ou da bolsa de valores, carecem de reflexividade. Como saber o que se passa quando morrem 20 pessoas durante uma semana, se não entendendo o porquê disto ocorrer? Há muito mais coisa envolvida do que apenas uma quantidade maior ou menor de policiais nas ruas. E os chamados, de forma um tanto quanto pretensiosa, formadores de opinião não estão apartados como responsáveis por um debate cheio de cortes e privilégios. Como mudar? Um bom ponto de partida seria agir dando o mesmo peso e relevância ao que aconteceu no passado e acontece hoje em todas as regiões das terras de poti. Do contrário, tudo será alterado para que continue exatamente como se encontra. Alguém duvida?

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