Formulador de estratégia sobre a covid-19 cita ‘pedra no caminho’ ao deixar governo Bolsonaro

Do Estadão – BRASÍLIA – O enfermeiro e epidemiologista Wanderson Oliveira despediu-se do Ministério da Saúde com recados à interferência do Palácio do Planalto sobre a estratégia da pasta de enfrentamento da covid-19. Em publicação divulgada a colegas na noite de terça-feira, 26, Oliveira afirma que o Brasil estava à frente de outros países e ampliava a capacidade de atendimentos e diagnóstico. No entanto, “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”, escreveu, reproduzindo trecho de poema de Carlos Drummond de Andrade.

Oliveira foi exonerado do cargo de secretário de Vigilância em Saúde na segunda-feira, 25. Ele já havia entregado carta de demissão do governo durante a gestão de Luiz Henrique Mandetta (DEM), mas acabou permanecendo na pasta a pedido de ministros da ala militar. Tido como um dos principais formuladores da estratégia inicial de enfrentamento da covid-19, Oliveira é servidor do Hospital das Forças Armadas (HFA) e referência em estudos sobre saúde pública.

O epidemiologista não nominou a “pedra” que atravessou o seu caminho na pasta, mas sinalizou na mensagem de despedida que o trabalho que estava em curso foi interrompido. Mesmo o ex-ministro Nelson Teich, segundo o epidemiologista, “seguiria pelo mesmo caminho”, mas também foi atrapalhado.

“Pelo bem de minha saúde e de minha família, era hora de deixar o caminho livre para novas ideias, novas pessoas e novas estratégias”, afirmou.

O epidemiologista teve diversas passagens pelo Ministério da Saúde desde 2001. Além dele, outros técnicos com mais de uma década de experiência na Saúde deixaram a pasta após a exoneração de Mandetta. O médico Julio Croda era parte da equipe de Oliveira e demitiu-se ainda em março. Ele afirmou ao Estadão que “não quis ser responsável” por orientação “equivocada” contrária ao o isolamento social e por óbitos.

Na leitura de técnicos do ministério, o presidente Jair Bolsonaro incomodou-se com o protagonismo que a Saúde recebeu no começo da pandemia. O mandatário também se opôs publicamente a recomendações de distanciamento social e passou a estimular aglomerações, ao participar de manifestações pró-governo.

Ainda na gestão Mandetta, a pasta chegou a recuar, por pressão do governo, de orientações como de “auto-isolamento” para pessoas que retornavam de viagem internacional. Mais recentemente, na gestão interina de Eduardo Pazuello, o ministério mudou radicalmente de discurso e publicou orientação para uso precoce da hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia comprovada contra o vírus.

“Estávamos à frente pelo menos duas semanas em relação aos demais países da Europa e Américas, ampliando a capacidade laboratorial, leitos, EPIs e Respiradores. No entanto, como dizia o poeta e conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, ‘no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”‘, afirmou Oliveira ao despedir-se.

“Sobre a resposta à pandemia da covid-19, seria muito bom conhecer o contexto de cada decisão que foi tomada, pois nem tudo que se vê é o que parece, nem tudo que parece é o que realmente é. Há muita história em cada decisão que deve ser contextualizada ao seu tempo”, completou o epidemiologista.

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