Homo concurseirus

Faria uma boa análise sociológica quem se debruçasse sobre os livros de auto ajuda que educam para passar em concursos públicos. Carregados de pregação moral e frases de ordem, este tipo de literatura não tem a pretensão, apenas, de ensinar como os concursandos devem estudar. Há todo um modo de vida que é (im) exposto.

A tônica é sempre a da disciplina e da memorização. Os alunos são incentivados a refazerem suas práticas em favor de uma rotina completamente voltada para a apreensão daquilo que é necessário para ser aprovado em uma seleção para ocupar um cargo no Estado. Porém, a reflexão, quase que via de regra, é deixada de lado. “Só estude o que interessa”, diz o autor de um livro da área. A ideia de formação se resume, neste sentido, a um programa de um edital. Como me disse certa vez um amigo: “para ser juiz não preciso saber aonde fica o Chile”.

A capacidade de estabelecer uma relação crítica com o assunto é quase que completamente apagada. O código da lei do servidor, sempre presente no conteúdo das seleções, é lido sem a menor pretensão de questionar qual o tipo de relação trabalhista que ele expressa. Reter as informações “relevantes”, com todo o viés do que implica algo relevante neste contexto, é o que importa.

Passar em um concurso público significa, praticamente, ir para o céu. “Nunca desista” é o conselho dado por todos os autores da área, como se a pessoa, ao direcionar sua vida para os concursos, entrasse em um processo de peregrinação religiosa. Aprovação implica superioridade moral. Expressão da perseverança. Mudar o foco profissional demonstra fraqueza da alma, uma incapacidade de atravessar o purgatório. Uma pessoa de pouca fé.

Além de movimentar um mercado que duplica de tamanho a cada ano, a literatura de auto-ajuda para concurso gera um indivíduo incapaz de criticar. Só as conexões das questões dos exames importam. As chamadas pegadinhas são os perigos para a “alma pura”. A ideia é criar um indivíduo burocrático preso a uma lógica que é ditada pelas organizadoras de concursos públicos – nada de namoros empolgantes, de amizades profundas e do ócio produtivo. Como um evangélico recém-convertido, tudo que não diz respeito aos concursos pode tirar o concursando do justo caminho e levá-lo ao inferno que a não aprovação representa.

O conhecimento sem substância só privilegia às bordas, indivíduos atomizados carregados pelo desejo de atingir altos salários e cômodas jornadas de trabalho. Não a toa os livros de auto ajuda da área pintam o paraíso como o indivíduo saindo cedo do trabalho, carregado de símbolos da bonança financeira (geralmente um bom carro) e indo para a praia surfar diante de um belo sol de início de tarde.

É este modelo de homem que irá mudar a sociedade? Movimentar as atividades de estado? Servir ao público? O sonho de ingressar em uma carreira de estado, pelo modo como é alimentado pela indústria cultural concurseira, destrói as possibilidades de construir uma sociedade diferente. É o projeto político de um homem egoísta, que não entende (e não quer compreender) o papel que irá desempenhar na sociedade. Desafio para ele? Só o de se superar e passar numa seleção ainda mais difícil.

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