Jean Paul Prates, um francês no senado de Brasília

TRADUÇÃO LIVRE

_Jean-Paul Prates se tornou, no dia 4 de janeiro, o primeiro francês integrar o Senado brasileiro. Sua mãe deixou a França durante a guerra, quando criança_

· Gilles Biassette, enviado especial a Brasília ,

· 20/05/2019 às 14:21

Jean-Paul Prates, um francês no Senado de Brasília

Do jornal “La Croix”

De seu escritório, enquanto continua a conversa com um visitante, Jean-Paul Prates observa com o canto do olho a televisão colocada perto do sofá. Ela transmite os debates do dia no Senado, onde sua presença em breve será necessária. Ainda não completamente familiarizado com o funcionamento da instituição, o novo representante presta atenção na forma como seus colegas procedem. Depois de mais uma ou duas intervenções, será a vez de Jean-Paul. Estudioso, ele dá uma última olhada em seus arquivos.

Nesta grande arena da política brasileira, Jean-Paul Prates é um recém-chegado: um especialista em petróleo e, mais amplamente, um especialista em questões energéticas. Ele embarcou na aventura política há quatro anos. E ainda com cuidado – como um suplente. Mas a eleição da senadora Fatima Bezerra como governadora do Rio Grande do Norte, em outubro de 2018, o levou à frente do palco. Aqui está ele, senador desde 4 de janeiro, por um mandato de pelo menos quatro anos.

_O primeiro na história da República brasileira_

Antes mesmo de marcar presença nos debates legislativos, Jean-Paul Prates, de certa forma, já fez o mais difícil – entrar na história. Ele é de fato o primeiro senador, desde o advento da República, em 1889, a ter nacionalidade francesa. “Na época do Império, dois franceses sentaram-se no Senado, mas isso foi há muito tempo!”.

Jean-Paul nasceu no Rio, em 1968, filho de pai brasileiro, vindo de uma grande família no sul do país. Sua mãe era francesa. “A pé, ela deixou a França com a minha avó, durante a guerra”, diz ele. Ela tinha então oito anos de idade. A avó foi quem lhe transmitiu o amor pela França. “Ela tinha um baú cheio de memórias da França. Para abrir, foi uma cerimônia… Ela tinha fotos do General De Gaulle, por quem tinha grande admiração. ”

_Um destino marcado pela política_

Basicamente, a política sempre esteve presente na vida do novo senador. Primeiro, porque era uma paixão familiar, pelo lado paterno. “Meu avô, filho de um governador, era ele mesmo um político”, diz ele. Um tio, jornalista, cobria a presidência de Juscelino Kubitschek, o fundador de Brasília, e do seu sucessor João Goulart, cujo pai era o secretário. ”

Por causa das reviravoltas políticas, seus pais se conheceram. “Quando João Goulart foi derrubado pelos militares, em 1964, meu pai teve que deixar o país. Ele foi para os Estados Unidos, onde conheceu minha mãe, uma aeromoça da TWA. O casal se estabeleceu quatro anos depois, no Rio.

_Do ouro negro às energias verdes_

Jean-Paul Prates seguiu o caminho do ouro negro, o petróleo. Seus estudos o levaram aos Estados Unidos, Pensilvânia, mas também aos subúrbios de Paris, ao Instituto Francês de Petróleo. Voltando ao Brasil, logo se juntou à gigante nacional do setor, a Petrobras, e rapidamente se tornou um dos mais famosos especialistas do país.

“Na verdade, foi através dessa especialização que comecei a me aproximar da política”, diz ele. E, antes de tudo, política energética, colaborando em particular na reflexão sobre a abertura do petróleo, em 1997. Essa data marca um verdadeiro ponto de virada na vida econômica do país, já que significou o fim do monopólio da Petrobras. Em meados da década seguinte, a ponte foi definitivamente atravessada quando lhe foi oferecido o cargo de Secretário de Estado da Energia do Estado do Rio Grande do Norte. Jean-Paul Prates então se mudou para o Nordeste, onde liderou uma ambiciosa política de energia renovável.

_De François Mitterrand para Lula_

Pouco a pouco, ele vai gostando desse novo universo. Em 2013, o mesmo Jean-Paul que na sua juventude votou em François Mitterrand, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores, uma agremiação histórica da esquerda brasileira. Mas, em 2016, tudo desmoronou: Dilma Rousseff foi destituída da Presidência da República, e o ex-presidente petista, Luiz Inácio Lula da Silva, foi sentenciado e preso. No ano passado, a extrema direita chegou ao poder, com a eleição de Jair Bolsonaro.

Esse acúmulo de más notícias não fez com que Jean-Paul Prates perdesse sua jovialidade natural: ele sabe que a vida política é cheia de idas e vindas, que nada é eterno. Mas ele também sabe que nestes tempos conturbados, o Parlamento da República tem um papel mais importante do que nunca para desempenhar.

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*Sua inspiração, o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro*

“Entre minhas referências está Darcy Ribeiro, um grande intelectual da esquerda brasileira da década de 1960. Ele foi um importante antropólogo, que escreveu extensivamente sobre a identidade indígena e latino-americana da Amazônia. Mas também foi um ator político, especialmente no campo da educação. No início dos anos 1960, dez anos depois de ter fundado o Museu do Índio, no Rio, Darcy Ribeiro foi convidado para governo para assumir o Ministério da Educação. Depois, se tornou chefe da Casa Civil do presidente João Goulart. Após o golpe de 1964, Darcy se exilou no Uruguai. Nos anos 80, ele ocupou novos cargos políticos no estado do Rio. Darcy Ribeiro morreu em 1997.

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