Lava jato x Combate à corrupção

Lava jato x Combate à corrupção

Há uma diferença entre procurar o “cabeça” da “organização criminosa” que saqueou o Estado e promover o combate à corrupção. Sim, é óbvio que a impunidade ajuda a corrupção. Porém, não pode ser o único aspecto a ser levado em conta. Do contrário, pode trazer o inverso do pretendido. Com projeto escancarado de destruir a classe política, vendo nela a causa da corrupção, a Lava Jato colocou o executivo e o legislativo contra si.

A discussão gerada pela Lava Jato tem sido travado em torno da pergunta: Lula era o “cabeça” de tudo? Bem, será que este debate, de ataque aos “donos do poder”, trará menos corrupção futura? Sou cético. Direi o porquê.

Interesses particularistas, pessoais e/ou empresariais, que subvertem as funções públicas do Estado, estarão sempre presentes. O que precisamos debater não é este aspecto. Temos de nos perguntar sobre como os sistemas de controle do Estado falharam em impedir que contratos fossem superfaturados, alguns de forma tão gritante (vide Abreu e Lima).

(Imaginar o incorruptível como solução implica em não perceber que os que ocupam postos chave da burocracia e política estatal não foram corrompidos, eles, pela carência de contrapesos e outras institucionalidades, viraram marionetes comandados pela força do dinheiro)

É importante a gente saber, ter a exata dimensão, de que maneira a burocracia da petrobras pecou. Vale elucidar de que forma a caríssima estrutura dos Tribunais de Contas passou inerte, sem nada perceber. Como controladorias municipais, estaduais e nacional não mereceram o nome que carregam.

Outra pergunta óbvia a ser feita, mas que os debatedores, alguns histéricos, da corrupção deixam de lado é: como tanto dinheiro pode circular sem que o sistema bancário constatasse. Foi cúmplice ou simplesmente o controle financeiro brasileiro não funciona?

Não acho que estamos promovendo o combate à corrupção por conta da ausência de arguição sobre os nossos pilares de controle, sobre o que Giddens chamou de sistemas perito.

Pelo contrário. O percurso tem sido: 1. tentar retirar do poder os que se consideram seus donos. Foi deste modo que colocaram o Temer, com uma agenda não combinada com o eleitor, lá; 2. promover uma suposta renovação via eleição e “reforma política”; 3. transferir parte do poder controlado pelo voto – soberania popular – para as mãos de quem não tem voto, contando com a falsa expectativa de que o MP, Judiciário e Imprensa sejam mais capazes de administrar o país.

Do meu modesto ponto de vista, de quem escreve aqui de Parnamirim, isto não irá funcionar. Daí que, mais para frente, uma nova onda de desalento tomará conta. E continuaremos a nos enxergar, de forma tola, como o povo mais corrupto do mundo.

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