Líder em pleno crescimento e com rejeição em queda, Lula deveria agradecer a Temer, Moro e Dallagnol

Em recente pesquisa veiculada pelo instituto datafolha, Lula atingiu 39% dos votos e sua rejeição segue em queda livre. Como explicar o fenômeno que Lula hoje representa? Na cadeia há meses, sem qualquer comunicação direta, sem dúvida alguma virou uma “ideia”, como ele falou em seu último discurso ainda solto.

Até pouco tempo atrás, Lula estava em situação política complicada, sofrendo com uma rejeição nas alturas, com o revés vivenciado pelo governo Dilma. O seu eleitor se encontrava chateado pela indicação da presidente que foi apeada do cargo. Em seu segundo mandato, Dilma terminou de colocar os pés pelas mãos, gerando uma crise econômica sem precedentes e dinamitando, em parte pelas próprias iniciativas, toda sua base de apoio. Tentou se reconectar com o partido o com o seu mentor no final da avalanche, mas já era tarde.

Só que o que era inimaginável ocorreu. O vice Michel Temer, alçado agora ao papel de presidente, prometeu gerar emprego, crescimento e renda. O início até parecia promissor. Porém, portador de uma agenda demofóbica, pois que sem amparo eleitoral, teve de arcar com a fatura. Sua rejeição disparou. Por fim, a tampa do caixão foi fechada com a gravação da famosa conversa com Joesley Batista (JBS) na residência oficial. Hoje, Temer é mais rejeitado que sua antecessora, que deve chegar ao senado pelo estado de Minas Gerais.

Mas a história não termina por aí. Toda a operação gerada pelo impeachment reabilitou Lula da indicação infeliz que Dilma representou – e que o próprio reconhece em livro entrevista recém publicado – e abriu caminho para uma comparação, que lhe é extremamente vantajosa. O contexto de desemprego e ausência de crescimento com Temer é antagonizado com o “tempo de Lula” e suas elevadas taxas de ocupação, consumo e expansão da atividade econômica. O voto retrospecto, que sonha com um passado de bonança, é o que move a cabeça de seu eleitor.

Por fim, há a Lava Jato. Em que pese sua inegável contribuição, demonstrando os meandros da corrupção em setores estratégicos do Estado brasileiro, os investigadores se perderam pelo caminho ao tentarem fazer política. A carência de comedimento por parte do seu principal juiz, Sérgio Moro, e o procurador geral da república coordenador da operação, Deltan Dallagnol, colocou todo o grupo em suspeição aos olhos de parcela nada desprezível do eleitorado.

A estratégia de mirar primeiro no PT, para depois buscar os demais, deu verniz de verdade a teodiceia da perseguição contra o partido dos trabalhadores. A divulgação – ilegal – do grampo da conversa de Lula com Dilma, as dezenas de fotos de Moro com agentes da oposição acenderam o farol da desconfiança e falas e powerpoints do Deltan tiraram o afastamento político que seria necessário para que os dois apontassem o dedo jurídico para quem de direito sem nenhum tipo de indagação quanto a qualquer parca possibilidade de ingerência política. Eles entraram num terreno em que são amadores e que deveriam não se permitir pelas posições que ocupam e foram engolidos. A rejeição ao que Moro representa segue em disparada, conforme pesquisas. Lula terminou martirizado e agora símbolo da resistência dos menos afortunados contra os “poderosos”.

Na mesma medida em que a Lava Jato agia como partido político, ia ficando claro que as demais agremiações estavam também envolvidas. Esse “timming” dado pela PF e pela PGR, inicialmente muito ruim contra o PT, criou um ambiente farsesco contra à operação Lava Jato tornando-a sinônimo de ataque ao mandato de Dilma através da legitimação – agora não mais aprovada pela maioria dos brasileiros – de seu impeachment.

Moro e Dellagnol seguem ajudando. Ao PT e Lula, no caso. O reforço da narrativa petista não vem apenas pelo modo relâmpago com que o referido juiz julgou o ex-presidente e sua corte imediatamente superior, o tribunal regional federal da quarta região, referendou, furando fila e tudo mais. Mas das constantes declarações políticas de Moro e da maneira como se negou a julgar membros do PSDB, principal partido de oposição. Alegando excesso de trabalho, devolveu processo contra o governador do Paraná, Beto Richa, mas antes invalidando o principal depoimento de uma testemunha contra o tucano. Ao mesmo tempo em que negava trabalho potencialmente contra um dos grupos em disputa contra Lula, por um lado, saia de suas férias para impedir a soltura do ex-presidente.

A análise deve ser realista. Por isso, é bom já ir se acostumando com a possibilidade – real – do PT voltar a governar o país. O partido dos trabalhadores colocará alguém no segundo e com amplas chances de vitória. Dado como morto, Lula deveria agradecer a Temer, Moro e Dallagnol.

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