Lula vai esticar a corda com o judiciário. Até arrebentar

(Facebook)

Do blog os novos inconfidentes

Por Raquel Faria

A recusa dos benefícios da lei e da semiliberdade a que já tem direito é um dos atos mais audaciosos de Lula. O ex-presidente está partindo para o tudo ou nada em seu confronto com o judiciário. Não há outro intuito em seu gesto além do protesto. É uma declaração política, de reafirmação da autoinocência e de guerra à Lava Jato. Lula se mostra disposto a esticar a corda ao máximo. Até ela arrebentar. E isso terá grandes consequências.

A radicalização de Lula não dá margem a meio termo. É oito ou oitenta. Ele quer sair da cadeia com a ficha limpa e a biografia resgatada, inocentado das acusações ou com os processos anulados. Se não for assim, ele prefere continuar em sua cela e na pose de prisioneiro político, negando o sistema judicial com tanta ênfase ao ponto de recusar os seus benefícios.

O ex-presidente sabe o que faz. Com seu protesto ele alimentará a fé dos apoiadores e outros públicos em sua versão de que é vítima de perseguição política. Também pressiona a Justiça a reconhecer a suspeição do juiz que o condenou, Sérgio Moro.

O tempo corre a favor de Lula. O ex-presidente pode se beneficiar de um aumento do desgaste de Moro, seja por novos vazamentos de conversas na Lava Jato ou pela atuação no ministério de um governo em franco declínio de popularidade.

Há também riscos na estratégia lulista. Ela pode irritar o judiciário além da medida, predispondo ainda mais a magistratura contra o ex-presidente. No tudo ou nada, Lula pode perder em definitivo a chance de recuperar em vida a liberdade. Mas, os riscos do outro lado da corda não são menores. De repente, podem ser até maiores.

O judiciário corre sério risco de ter Lula como um raro prisioneiro oriundo da classe política. A Lava Jato expira no mês que vem. Os processos em curso estão sendo enviados para a Justiça Eleitoral, onde irão recomeçar na 1ª instância. Esta é a decisão do STF, que entendeu como crimes eleitorais todas as acusações envolvendo caixa dois de campanha – caso de quase todas as irregularidades atribuídas aos políticos na Lava Jato.

A fase das grandes prisões de políticos já passou. E não voltará tão cedo. Não neste governo. O processo de escolha do novo chefe da PGR, órgão de comando do MP, e os estratagemas para abafar casos como o laranjal do ministro Marcelo Álvaro Antônio ou as transações imobiliárias de Flávio Bolsonaro indicam que a partir de agora os escândalos não serão tratados com o mesmo rigor lavajatista. Nem faria sentido na narrativa bolsonarista. Para o presidente e seus eleitores a corrupção é coisa do PT. Então, com Lula preso e os petistas fora do poder, não haveria razão para se fuçar nos altos escalões; só eventualmente no varejão da política paroquiana, para manter as instituições “funcionando” – nas aparências.

A corda arrebenta sempre no lado mais fraco, diz o senso comum. Em tese, Lula seria a parte fraca no confronto com o judiciário. Ocorre que ele já está preso e ainda é réu em novas ações. Ao radicalizar, perde no máximo um breve período de liberdade restrita e passageira, antes de retornar à prisão por força de nova condenação. Realmente, Lula parece não ter nada a perder no confronto. Mas, o mesmo não se pode dizer dos magistrados, que constituem a categoria mais bem paga, protegida e empoderada no país. Mais forte impossível. Esses têm muito a perder.

Deixe uma resposta