Montando uma narrativa: por que Bolsonaro atua contra a quarentena

MOTANDO UMA NARRATIVA: POR QUE BOLSONARO ATUA CONTRA A QUARENTENA

Um erro básico na análise política é idealizar humanos. Um certo sábio certa vez disse que ficamos mais tristes com a perda do patrimônio do que com a morte do nosso pai. É em cima disso que Bolsonaro empreende do ponto de vista político. A racionalidade – extremista e populista – pensa no longo período.

Vamos por partes:

  1. Um contingente muito maior de pessoas sentirá mais a crise econômica brutal que se avizinha do que a morte pelo coronavírus.
  2. Esse contingente maior não vai querer saber se a quarentena funcionou. Vai olhar principalmente para os seus empregos e empresas perdidos. E procurará culpados.
  3. Só quem vivenciou de alguma forma a morte ou complicações pela pandemia, através de parentes e amigos, saberá mais diretamente a gravidade da doença.
  4. Os próprios acometidos, em média 85%, terão gripe relativamente normal. Reforçarão o discurso da “gripezinha”.
  5. É diante desse cenário que Bolsonaro atua. Ele prepara o alçapão para o momento pós-quarentena, já que sabe que será responsabilizado pela crise dos próximos anos. Daí já construir um bode expiatório – o sistema (governadores e mídia).
  6. Uma consequência não intencional da quarentena pode ser, por um aspecto, fortalecer Bolsonaro. Com a queda das mortes, seu discurso ganha força.
  7. Mas ainda assim será preciso explicar os que se foram com a pandemia. E aí entra sua narrativa: “são pessoas idosas ou já doentes, que podem morrer de Coronavírus ou de gripe comum”. O fatalismo estabelecido na forma de um destino inevitável amansará as consciências de quem berrará amanhã contra as medidas de quarentena e suas consequências econômicas.

Dará certo? Eu não sei. Mas está claro que a racionalidade posta na movimentação é essa. Ele tenta salvar sua reeleição ao manter a tese de que luta contra um sistema que é capaz de politizar o combate contra uma doença, mesmo que isso custe milhões de empregos.

PRESIDENCIALISMO

Para quem acha que um Ministro manda mais do que um presidente, é bom procurar se informar sobre a mudança de tom do Ministério da Saúde. O Mandetta já está alinhado com Bolsonaro e criticando os governadores.

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