Não há “dois lados” sobre a ivermerctina: cassar o direito à mentira sem contestação pública seria a principal contribuição da imprensa local contra a pandemia em Natal

Em recente pronunciamento na assembleia legislativa do RN, o deputado estadual Albert Dickson disse que o tratamento profilático com ivermectina possibilita que em 90% dos casos as pessoas não cheguem até a condição severa da covid-19 (leia aqui). Ora, o detalhe é que quem não toma também e sabemos disso desde meados de 2021, quando toda a evolução da doença, taxa de letalidade, grupos de risco, etc, já estavam bem mapeados e devidamente publicados na imprensa mundial (leia aqui).

Em recente manifestação da associação médica do RN, em defesa da ivermerctina e da cloroquina, foi dito que a ivermectina diminui em até 75% a morte por covid. Também fez outras afirmações e citou como referência o c19study (leia aqui).

Não há nenhuma pesquisa que mostre esse dado de queda na letalidade, conforme já foi desmentido por agências de checagem nacional. A informação circulou em grupos de zapzap e até inicialmente em parte da imprensa mais próxima do bolsonarismo (rede Record) há meses atrás, mas os próprios pesquisadores autores do estudo disseram que não era bem assim e toda a imprensa divulgou que o dado não procedia (leia aqui).

A referência bibliográfica c19study, por sua circulação no mundo virtual bolsonarista, já foi objeto de várias matérias, demonstrando que não é site científico e que as metodologias dos textos lá publicados são duvidosas e não revisadas por pares. Na prática, tem valor científico zero (leia aqui).

A prática local de amparar dados em fontes não confiáveis e dados falsos não vem de hoje. Em julho, quando a prefeitura do Natal e membros do comitê científico comemoraram Natal como um sucesso mundial e creditavam a ivermerctina (leia aqui), a cidade tinha índices de casos e óbitos maiores do que a média nacional e do RN. No fim do primeiro pico em junho, a capital chegou a concentrar quase a metade dos óbitos do RN apesar de contar com 24% da população (leia aqui e aqui). São apenas alguns exemplos.

Se você abriu os links que comprovam o que foi publicado aqui, caro leitor, perceberá que a mentira é publicada na imprensa local e a verdade toda vem de portais nacionais. O doisladismo jornalístico, já abandonado fora das terras de poti, ao menos no que tange as promessas fake de tratamento e cura contra covid, segue com toda força no RN. Não há uma generalização, mas a afirmação que segue como linha hegemônica. E pior. Abrindo mão da apuração e contestação das fontes e dados mobilizados por determinado grupo de atores.

É essa postura, que mesmo após tudo o que já foi veiculado sobre o assunto, faz com que órgãos de imprensa local continuem a legitimar uma falsa sensação de segurança contra o novo coronavírus que leva ao relaxamento daquilo que de fato funciona por um tipo de profilaxia inexistente, pois que já negado por cientistas, agências de saúde do Brasil e do mundo e até por fabricantes.

Não há dois lados legítimos nesse debate. O que existe é um grupo que apostou numa saída, sem qualquer fundamento necessário para uma intervenção em massa como a que foi tentada em Natal, que nunca se comprovou. Pelo contrário. E agora usa de falsos números, referências não científicas e até de teorias conspiratórias para manter algo sem fundamento no ar e não sofrer as devidas críticas pela irresponsabilidade.

Só há portanto uma verdade: não há qualquer evidência que essa proteção medicamentosa contra Covid-19 exista.

É comum ler e ouvir que é preciso dar voz aos médicos e autoridades. E ora isto faz todo sentido. Vivemos numa democracia e ninguém deve ser calado. Só que o fato do jornalista ou comunicador não ser um cientista, não o impede de fazer aquilo que fora treinado pra executar – apurar. E, convenhamos, há mais de um ano que toda a imprensa profissional e a academia estão publicando freneticamente boas informações sobre o assunto. Não há mais a ideia de se dizer leigo diante do que exatamente a pandemia é capaz, principalmente para quem vive do consumo diário da informação.

Cassar o direito a enganação pública dos negacionistas, confrontando-os em seus discursos com pés de barro, na apresentação de dados sem qualquer base e outras peripécias seria a principal contribuição da imprensa local contra a pandemia em Natal. A falsa sensação de segurança prometida matou no passado e continuará a matar mais se mantida sem contestação.

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