O tabuleiro da política dentro e fora da UFRN forjou a irônica união entre reacionários e esquerdistas radicais em Natal

O TABULEIRO DA POLÍTICA DENTRO E FORA DA UFRN FORJOU A IRÔNICA UNIÃO ENTRE REACIONÁRIOS E ESQUERDISTAS RADICAIS EM NATAL

Há duas disputas em jogo no caso da FUNPEC/UFRN. Uma é externa. A outra, porém, tem relação direta com a política interna da casa. Cabe falar um pouco a respeito de cada uma delas.

UFRN PARA FORA

A CONFUSÃO NADA GRATUITA ENTRE FUNPEC, UFRN E MINISTÉRIO DA SAÚDE

A questão tem íntima proximidade com o problema de legitimar os cortes de Bolsonaro junto à UFRN. Já escrevi aqui diversas vezes sobre o tema. No próprio caso da FUNPEC, nos contratos citados pela imprensa local, não é deixado claro que os recursos geridos pela fundação são do Ministério da Saúde, não do Ministério da Educação e muito menos da UFRN.

A Funpec conseguiu os recursos para empreender a aplicação de 50 milhões em publicidade do ministério da saúde em todo o território nacional, por suas qualidades e não por seus defeitos. A UFRN é instituição parceira.

Olha que coisa interessante. A Funpec é atacada por quem se diz liberal (sic) justamente por seguir um modelo liberal de captação de recursos, para empreender projetos de governos e da iniciativa privada. Se fosse pelo governo, os recursos deveriam ser finalizados em, no máximo, um ano. Uma fundação tem a condição de fazer o planejamento em maior prazo, uma das razões pelas quais consegue firmar tal convênio com o MS. Ninguém se pergunta, talvez pela razão de agora não interessar, como uma fundação demonstra competência para ser superavitária no RN e ganhar projetos em cima de outras fortes concorrentes.

Em resumo, não há qualquer relação entre o contrato em pauta com as verbas de custeio que sustentam a universidade. Ao contrário do que circulam nas correntes de zapzap, alimentadas por algumas informações pela metade, a UFRN não desviou 50 milhões milhões de seu custeio para torrar com coisas que seriam supostamente supérfluas, ou mesmo de sua incumbência direta.

A confusão nada gratuita visa sustentar o falso pensamento: “como eles estão reclamando de cortes, se gastam tanto dinheiro com um único contrato”?

POLARIZAÇÃO EM NATAL: COMO A UFRN ENTRA NO MEIO DISSO TUDO

A correlação de forças caminha no sentido de manter essa polarização – bolsonarismo x petismo – por aqui em alta, pois que legitima alguns grupos políticos na cidade. O enfraquecimento da potência bolsonarista em Natal, que vale lembrar, ganhou na capital em 2018, não pode sair da nossa ótica. Algumas lideranças de Natal e do RN apostaram alto no bolsonarismo. O seu enfraquecimento representará também a perda de espaço delas.

Quem concebe a UFRN como petista simplesmente não olha para dentro da universidade com um pouquinho de calma e parcimônia. Se há setores mais próximos da esquerda, há também os setores de exatas, das engenharias e da saúde bem distantes. Além de desconsiderar que a rotina da instituição não tem relação com a política partidária, quem enxerga na universidade um pensamento homogêneo é alguém que desconhece a lógica básica interna da instituição.

Apesar do simplismo embutido já mencionado, a UFRN é vista pelos grupos bolsonaristas radicais como um “legado do PT” e que deve, portanto, ser combatida por um dado de sobrevivência política.

O PROBLEMA DO MERCADO PUBLICITÁRIO

Nas matérias de ataque à Funpec, entram também outros interesses em jogo. Se o leitor não ficar apenas nos títulos e links, verá que a comparação com o mercado publicitário local é sempre ventilada: “olha, se fosse por aqui, esse contrato seria mais barato”. É o lobby mercadológico de fundo nessa celeuma toda.

A UFRN PARA DENTRO

IRONIA: REACIONÁRIOS E ESQUERDISTAS SE UNEM

O que se comenta na UFRN é que o cancelamento da posse do reitor da UFRN no teatro riachuelo não teve relação com os ataques externos.

O novo reitor Daniel Diniz é o resultado de uma quebra de um consenso dentro da UFRN, que legitimava grupos que mandavam há muitos anos na instituição. Tais grupos iriam utilizar o ato para enfraquecer o reitor. Cartazes e manifestações estavam sendo preparados, inclusive. O seu recuo ocorreu pela ação interna. O que acontece fora da universidade serviu de subterfúgio para a alteração na cerimônia.

Quem são os insatisfeitos internamente? São os grupos que não toleraram a alteração na administração dos hospitais universitários e, inclusive, não aceitam o modelo de gestão de captação de contratos e recursos via FUNPEC. São grupos políticos hoje enfraquecidos dentro da UFRN já avisados que não participarão da gestão como antes. Serão retirados dos cargos que hoje ocupam. E se engana mais uma vez que pensa que estamos falando de petistas. Há petistas, psolistas, filiados ao Dem e próximos de outros entes hoje tidos como acima do bem e do mal. A variável partido não é o dado fundamental.

No consenso que chega ao fim, os espaços eram bem fatiados entre os grupos com poder de pressão na universidade. A crise interna é de um certo universitarismo administrativo de coalizão. Só que as diretorias de centro conhecem novos administradores, as chefias de departamento também. As eleições internas surpreendem e o poder circula. Algumas separações não estão claras. É irônico assistir ao fato de que os ataques vindos de fora da UFRN estão, na verdade, ajudando a esquerda jurássica reminescente dentro da instituição. As críticas contra a reitoria da UFRN foram incorporadas veladamente pelos setores hoje enfraquecidos dentro da universidade.

O novo reitor veio da área tecnológica, tem a oposição de parte das Humanas e recebe o olhar atravessado do ainda forte grupo, por exemplo, do ex-reitor Ivonildo Rego.

Esses grupos contrariados não queriam uma solenidade com todo o status do que significa ser reitor de uma universidade, mas uma posse na praça da UFRN, com cartazes, torcidas, faixas e demonstrações políticas que endossariam esses grupos como “de luta”; contra a reforma da previdência ou contra Bolsonaro, por exemplo.

Um estranho e trágico consenso – para não dizer cômico – se forma: reacionários de Natal se uniram aos esquerdistas radicais da universidade – claro que sem nenhuma programação deliberada – para desgastar uma gestão, que chegou ao poder, despertando desconfiança por enfatizar um discurso mais técnico.

É para rir ou chorar? Não faço a menor ideia. Escolha aí, caro leitor.

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