Os mercadores da morte não merecem impunidade: isolamento, colapso do sistema de saúde e o alastramento da Covid-19 no RN

A pandemia da Covid-19 no Rio Grande do Norte se intensifica como tragédia e como farsa. Estamos bem próximos do esgotamento dos leitos disponíveis e já enfrentamos problemas semelhantes aos vivenciados por outros estados. Há pouquíssimas vagas para recepcionar os que sofrem com a falta de ar, mas já há pessoas morrendo em face da distância que se encontram de unidades médicas habilitadas.

O duro alastramento da doença estava estabelecido e não faltaram avisos de países que já sofriam os seus efeitos, de estudos científicos e discursos institucionais de alerta. Mas o que era uma certeza foi pintada de titubeio pelos olhos da ignorância interessada de um grupo minoritário, mas com capacidade de amplificar as suas falas anti-isolamento. A conta chegou, só que os aliados do vírus agora não querem encarar a fatura encharcada de sangue e de forma covarde criam bodes expiatórios.

Foi dito desde o início que o isolamento social seria a única forma de desacelerar a violência letal do coronavírus. Sem ele, padeceríamos diante de mortes evitáveis em decorrência da falta de leitos dotados de respiradores, pois seria impossível fazer frente diante da onda avassaladora do crescimento exponencial da patologia e sua imensa versatilidade para hospitalizar. Exemplos de sucesso vieram devidamente esclarecidos lá de fora. Inúmeros prognósticos dos especialistas convergiram para o colapso do sistema estadual de saúde em Maio/Junho, caso a diretriz da quarentena coletiva preconizada pela Organização Mundial de Saúde não fosse seguida pela população. A necessidade de fazer política com P em miniatura pisando em cadáveres acabou falando mais alto.

Daí que a saída pela tangente agora é reclamar da gestão. E, a depender do gosto, do Estado ou dos Municípios. Em algumas situações, dos dois. Com cara de pau semelhante, óbvio. Toda a cantoria em verso e prosa macabra e o modo de não ingressar nela foi convenientemente jogada para debaixo do tapete. Aqueles que incentivaram que os cidadãos tomassem às ruas, que levassem suas vidas normalmente, furando o isolamento e vendendo uma falsa ideia de normalidade, agora com a cara mais limpa cobram providências dos poderes públicos.

Irresponsáveis com a vida alheia. Enquanto ficam em suas casas protegidos, pregaram que os cidadãos se escangalhassem em ônibus e centros comerciais. Venderam falsas esperanças e expectativas. Criaram dilemas retóricos para tentar desidratar adversários. Em pesquisa recém publicada, o Instituto Ipespe apontou que 80% da população teme contrair covid-19 e 56% dos brasileiros perderam renda. Ora, a crise não é de oferta, mas também de demanda. Está amplamente demonstrado que, sem controle da pandemia, não há economia. Análises comparativas mostraram que quem debelou o coronavírus mais rapidamente, obteve menos perdas inclusive econômicas. Afinal, ninguém investe num país em que as pessoas estão com medo de morrer. E consumidor algum sai para passear em shopping ou vai comer em um restaurante diante da possibilidade de sofrer na calçada dum hospital. Nunca foi defensor de emprego quem jogou pela ambiência necessária para a procriação da covid-19.

Os protetores daquele que está sentado na principal cadeira do Brasil precisavam, na verdade, encobrir o show de incompetência que o país demonstrou diante de um problema, que outras nações, muito mais pobres que a nossa, tiveram a competência de enfrentar. Fizemos tudo o que não devíamos: não impusemos barreiras sanitárias, não testamos, não importamos respiradores, não preparamos os agentes para as novas regras de higiene. O coronavírus encontrou uma população de braços abertos e tapete pronto para ser ensanguentado. Diante de toda a patacoada, restou o diversionismo e o alastramento das fake news para quem não queria largar a mão de ninguém.

Quem clama agora por mais leitos, como se estivesse de fato preocupado com algo além da sua própria pele e da sua reputação, se é que restou algum fiapo dela, grita porque quer que esqueçamos o que ele fez no verão passado. Quem defende remédio como panaceia sonha com o apagamento do cavalo de batalha contra o hospital de campanha, contra a aquisição de novos respiradores e a necessidade de contratar mais pessoal. Quem argumenta (sic) em prol de uma imunização de rebanho de 70% da população e sua carnificina inconsequente confia no eugenismo à brasileira, pois sabe que quem se expõe ao perigo, vive em piores condições e tem menos acesso aos serviços de saúde são os pobres.

Essas pessoas contam com o esquecimento dos potiguares e com a possibilidade de inventar um passado distante da realidade. Já dão de barato o silêncio dos seus pares. O texto acima serve como um pequeno ponto para que o povo do Rio Grande do Norte não esqueça. Que os acontecimentos sejam falados mais vezes. Pelo direito à memória. Os mercadores da morte não merecem a impunidade da história.

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