Por que a premiação da mega sena dada a assessores do PT virou notícia em todos os jornais do país?

Foi notícia em todos os jornais: 49 assessores do PT, através de bolão, ganharam na Mega Sena a importância de 120 milhões. Trata-se de algo inusitado, sem dúvida. Mas, poxa, há tanta coisa legal – e problemática – para debater. Só que os jornalistas e formadores de opinião não falavam em outra coisa ontem (18) e hoje nas redes sociais.

Por que algo menor ganha tanto relevo? As piadinhas que acompanharam o assunto ajudam a explicar a atenção concedida. Deputados de direita do Novo e do DEM disseram que o PT irá, depois do acontecimento, abandonar o projeto de lei de taxação das grandes fortunas e clamar pela diminuição da carga tributária. A brincadeira tem um quê de ato falho. Quer dizer que quando alguém pede menos impostos, inclusive contra as grandes fortunas, procura beneficiar os ricos? Além das confissões inesperadas, há uma disputa de sentido sendo travada.

A esquerda nacional, salvo alguns pontos isolados bem fora da curva, se modernizou. Não defende mais confisco e distribuição dos meios de produção. Tal possibilidade só se faz presente na cabeça radical de ideólogos bolsonaristas e de seus seguidores. Mas parece interessar a toda a direita essa visão, sem pé na realidade, de que ser de esquerda é lutar por ações coletivizantes em desrespeito ao mérito e ao esforço pessoal. Daí que, quando alguém de uma agremiação do referido espectro ideológico aparece demonstrando interesse direto em ganhar dinheiro – algo banal numa sociedade capitalista -, isto é enquadrado como uma suposta contradição.

A realidade é enorme, vasta e atravessada de nuances. O preconceito nem de longe a abarca. Mas foi a operação tentada em torno da curiosidade dos ganhadores petistas da mega sena. No fundo, viceja ainda a pré-noção de que ser de esquerda é aderir a certo franciscanismo ético e a um ludismo (anti) tecnológico. Em suma, é o besteirol estigmatizante em torno do esquerdista de Iphone fazendo parte do horizonte significativo capilarizado da direita política brasileira e de seus simpatizantes.

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