Simpatizantes de Bolsonaro erram mais questões sobre política, mas acham que sabem mais, indica estudo

Eduardo Scolese

Fábio Takahashi

Joelmir Tavares

FOLHA DE SÃO PAULO

Pesquisa feita com mil eleitores da cidade de São Paulo apontou que aqueles que aprovam o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) erraram mais perguntas sobre política local, mas creem que acertam mais do que os demais.

O levantamento foi feito em novembro e dezembro, época das eleições municipais, por cientistas políticos das universidades da Carolina do Norte – Charlotte (EUA), federal de Minas Gerais e federal de Pernambuco, em parceria com a Folha e a consultoria Quaest.

A amostra é representativa do eleitorado paulistano. As pessoas participaram de baterias de perguntas em painel online.

Para cada um dos entrevistados foi questionado se eles sabiam: 1) quem era o candidato apoiado por Bolsonaro na corrida paulistana; 2) quem era o candidato que havia disputado a eleição para governador em 2018; 3) quem era o vice na chapa de Bruno Covas (PSDB); e 4) quem era o candidato apoiado pelo governador João Doria (PSDB).

Também foi questionado quantas perguntas cada eleitor achava que ele próprio e os demais haviam acertado.

No grupo como um todo, os entrevistados acertaram em média 2,6 questões (entre 4 possíveis).

Os que aprovam a gestão do presidente acertaram menos perguntas do que a média (2,2 acertos no grupo pró-Bolsonaro). Mas eles achavam que haviam acertado mais (2,8) e que os demais haviam acertado menos (2,1).

Ou seja, eles sabiam menos do que achavam, mas acreditavam que os outros eram piores.

Os entrevistados que desaprovam o governo acertaram 2,8, o mesmo número que também achavam que haviam acertado. Eles responderam ainda que os demais participantes responderiam corretamente a 2 questões.

Os acadêmicos que conduziram as pesquisas foram Frederico Batista (Universidade da Carolina do Norte – Charlotte), Felipe Nunes (UFMG) e Nara Pavão (UFPE). Eles pretendem publicar um trabalho científico com os resultados.

Esses pesquisadores afirmaram que o comportamento dos simpatizantes de Bolsonaro é condizente com o efeito Dunning-Kruger, encontrado por professores da Universidade de Cornell (EUA).

Eles aplicaram perguntas para estudantes da instituição. Os que menos acertaram foram os que achavam que tinham acertado mais.

Os autores da pesquisa com o eleitorado paulistano fizeram paralelo com essa teoria: “Há grupos políticos que vivem na ilusão de que conhecem mais que os outros, porque são informados, mas por fontes que alteram a realidade”.

Essa afirmação está calcada em outra parte da pesquisa. Os simpatizantes do presidente tendem a consumir informações de forma desproporcional vindas de veículos como Terça Livre e Brasil Paralelo, que têm tido conteúdos contestados e classificados como falsos por agências de checagem.

Os que aprovam o governo federal (e acertaram menos questões que a média) tendem a consumir informações desses dois veículos na mesma proporção de Folha e UOL.

Entre os que reprovam o governo Bolsonaro (e que acertaram mais do que a média), o consumo de notícias vindas de Folha e UOL é cinco vezes maior do que dos sites Terça Livre e Brasil Paralelo.

“Os cidadãos que buscam informação em meios sérios e profissionais tendem a ter muito mais capacidade de discernimento entre o verdadeiro e o falso e muito mais condições de apreender a realidade política do país”, concluem os pesquisadores.

“Se quisermos colocar um basta no efeito perverso das fake news, será preciso um esforço coletivo de educação cívica, valorização da imprensa e incentivo a leitura de informações sérias e profissionais”, completam.

Procurados, os sites Terça Livre e Brasil Paralelo contestaram os resultados. O primeiro disse à Folha: “Essa pesquisa é uma notícia falsa e quem está consumindo são vocês”.

O segundo afirmou que, ao analisar o estudo, “identificou falhas de enviesamento no objeto, na amostragem e no método, estando assim em desacordo com as boas práticas científicas e sendo, portanto, uma peça de desinformação”.

Para o advogado e professor Marco Antonio da Costa Sabino, que é coordenador do Centro de Pesquisas de Mídia e Internet do Ibmec-SP e analisou o estudo da Quaest a pedido da reportagem, a conclusão sobre o comportamento de apoiadores de Bolsonaro precisa ser vista com cautela.

“Os dois grupos, tanto o chamado pelos autores de bolsonarista quanto o de detratores, acharam que sabiam mais do que os outros [participantes]. É o comportamento-padrão”, disse.

“Especialmente nos grupos de convicção, a tendência é o indivíduo acreditar que ele tem uma superioridade de conhecimento sobre todo o resto. E o que vigora na nossa arena pública é um debate polarizado, em que as pessoas tendem a procurar aquilo que mais agrada a elas.”

Segundo o doutor em direito pela USP, o problema não está em acessar veículos mais à direita ou mais à esquerda, mas em aceitar passivamente o conteúdo, sem questioná-lo.

“E não se pode generalizar esses veículos, dizendo que tudo ali é desinformação. O fundamental é ensinar as pessoas a identificarem o que é distorcido ou falso e a se defenderem disso”, disse Sabino.

A pesquisa foi desenhada pelos acadêmicos. O custo para a realização das entrevistas foi coberto pela consultoria Quaest. A Folha cedeu as assinaturas para parte dos entrevistados e revisou o questionário aplicado.

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