Sobre a condenação de Lula, a Lava Jato e a manipulação da opinião pública

SOBRE A CONDENAÇÃO DE LULA, A LAVA JATO E A MANIPULAÇÃO DA OPINIÃO PÚBLICA

Troquei algumas mensagens ontem, domingo, com internautas que acreditam que Lula é culpado no caso do triplex e cheguei a uma conclusão: muita gente não sabe a razão pela qual Lula foi condenado. Alguns acreditam que foi por ter escondido o apartamento do Guarujá, outros até mesmo pelo conjunto da obra.

A estratégia de convencimento da opinião pública de Deltan Dallagnol, explicitada nos diálogos vazados e publicados pelo The Intercept, Band News e Folha, foi exitosa. Ele diz explicitamente lá que, apesar da denúncia ser uma coisa, a ideia era ganhar as mentes dos brasileiros com outra: Lula era chefe do esquema de corrupção na petrobras.

Aos fatos. o ex-presidente não foi condenado por ser líder de uma organização criminosa. Nem por ter ocultado a posse do triplex. Ele sofreu sentença, que praticamente já efetivou toda na cadeia, por ter recebido o apartamento, segundo a tese de Sérgio Moro e Dallagnol, em troca da concessão de três contratos da estatal para a OAS.

É por isso que não é suficiente apresentar provas apenas de que Lula era o proprietário oculto do imóvel em pauta. Se o problema fosse apenas este, ele seria julgado em São Paulo, sede do possível crime, por ocultação de patrimônio. Ele só foi para as mãos de Sérgio Moro, no Paraná, pela alegação de que o Triplex era, na verdade, o pagamento de propina por facilitações feitas pelo presidente para a empreiteira.

Aí ingressa a centralidade do depoimento do executivo Léo Pinheiro. Sua versão, depois de alterada duas vezes, é o único elo entre o triplex como sinônimo de recebimento de vantagens ilegais por Lula. Sem sua última declaração, repito, não há nada que ligue o caso de Lula ao escândalo na estatal. Veja a matéria da folha de ontem, domingo, e saiba um pouco mais sobre a fragilidade da versão dada por Léo Pinheiro contra o presidente.

Em resumo, o grosso da condenação de Lula não foi pelo primeiro ponto: por ser dono oculto do imóvel. Foi pelo segundo: o imóvel foi dado em troca da OAS acessar 3 contratos superfaturados na petrobras.

É a segunda confusão que acredito que também foi incentivada deliberadamente pelos operadores da Lava Jato junto à opinião pública. Tanto é que, a cada discussão sobre o processo, a briga se instala em torno da pergunta: Lula era o proprietário ou não do imóvel. Como há fotos de Lula visitando a residência e notas fiscais de reformas, o “concreto” – pois visível – acaba convencendo, sem que o falso dilema seja de fato enfrentado. Em nota sobre a condenação, veiculada também no último domingo, o MPF mais uma vez produziu a colagem entre as provas do ponto 1 com o ponto 2 como se dissessem respeito a algo semelhante.

Não a toa, tanto Sérgio Moro, como o procurador Deltan Dallagnol, enfatizam a importância da opinião pública. Porque, através do atendimento dos seus anseios imediatos, é possível fazer pressão sobre a justiça, por fora, para impor suas teses, sem grandes contestações.

Eu não sei vocês, mas não quero uma justiça assim, pois é uma forma atualizada das condenações em praça pública, quando um orador experiente comovia a multidão e impedia espaço para qualquer perspectiva contraditória.

 

Link para a nota do MPF citada no texto

http://www.mpf.mp.br/pr/sala-de-imprensa/noticias-pr/forca-tarefa-reafirma-que-processo-do-triplex-foi-baseado-em-amplo-conjunto-de-provas

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