Sobre a necessária reconstrução da esfera pública

Ter uma relação crítica com o que se lê nos jornais não pode ser sinônimo com dinamitar qualquer base de confiança nas informações legítimas que circulam. Porém, este tem sido o efeito devastador que a narrativa sobre a “globo golpista” ou “comunista”, a depender do lado em que você se encontre, contribuiu para gerar no país. A pauta de ataque irrestrito à mídia gera a operação obscurantista em que trocamos o debate iluminado por pessoas que assinam seus textos por correntes de zapzap.

Cito um caso concreto. A imprensa noticiou que a UFRJ recusou 80 milhões de reais de um banco para financiar o museu nacional, recém consumido pelo fogo, por não aceitar que ele viesse a ser gerido via organização social.

Ninguém precisa concordar com o modelo. Só que é uma informação de relevo e, diante da situação de questionamentos, os gestores do museu deveriam ser chamados a mostrar como o rumo que escolheram para o equipamento foi mais vantajoso para ele. Isto criaria debate, mas não apenas; forjaria aprendizado institucional de controle e administração do patrimônio.

A coisa não caminhou por aí. Diante do embaraço, os gestores preferiram negar e chamar tudo de fake news. A atitude hoje é generalizada e não se restringe aos seguidores de Bolsonaro.

Em mais uma nova pesquisa sobre o caso, a jornalista Malu Gaspar da Revista Piauí reuniu informações sobre a verdadeira existência da proposta. Mas agora em vão. O debate não ocorreu e os gestores do museu nacional, nem a UFRJ, não se explicaram pela parte que lhes cabiam no problema. Este é o resultado de uma esfera pública destruída pelo plantio de uma descrença generalizada contra toda e qualquer informação oficial que circula.

Sem um caldeirão de fomento de ideias não sairemos da crise. Resgatar uma racionalidade comunicativa no espaço público requer a valorização de boas práticas da imprensa, que é plural e não um agente uniforme e, mesmo com todos os seus problemas, tem prestado um serviço de relevo diante de tudo que circula nas redes.

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