Sobre a sociologia política de Pierre Bourdieu e a disputa em torno da revisão do plano diretor de Natal


A parte que considero mais interessante na sociologia política de Pierre Bourdieu – olha que empáfia! Eu me colocando na condição de dizer o que é mais ou menos relevante na ciência do eminente sociólogo francês -, é aquela em que ele avalia os meios através dos quais lideranças e grupos organizados, defendendo interesses específicos (legítimos), falam como se fossem a voz do universal, a expressão divina do pensamento coletivo do povo. No debate em torno do plano diretor de Natal os “dois lados” definidos da disputa mobilizam tal operação. Numa perspectiva, a esquerda enquadra qualquer tentativa de revisar o plano diretor como sinônimo de adesão aos interesses malévolos de empresários que querem a cidade apenas para eles. É uma forma de desenhar o problema assim: olha, só nós temos coragem para proteger uma Natal para todos. Qualquer proposta diferente da nossa se estabelece por inclinações venais. O estigma contra o interlocutor abusa de termos como “espigão”, “verticalização”, etc. Em resumo, o crítico radical da revisão do plano diretor pinta-se de bonzinho e demoniza o outro.
Na outra ponta a estratégia não é distinta. Os que querrem revisar a normatização da cidade alegam que seria uma maneira de levar a capital ao encontro do progresso. A narrativa é velha conhecida: ela nos deu do Papódromo até o Arena das Dunas. Quando argumentam ficamos com a impressão de que tudo de ruim se deve hoje ao plano diretor de 2007. Quem se opõe aos seus pontos de vista nada mais é do que um protetor do atraso, alguém jurássico. Por essa lógica, não deve acontecer debate, mas apenas reverência a quem supostamente quer levar o município ao primeiro mundo encantado do jardim da infância e sem desafios.
Penso que o caminho responsável a ser buscado é o do debate em prol do encontro de um ponto de interseção entre os interlocutores. Não é possível colocar a verticalização e o maior adensamento como sinônimo de crime alicerçado no interesse das elites. Bairros estão morrendo por conta de uma legislação ultrapassada. Nem muito menos esquecer do direito à cidade, à paisagem. É hora da articulação pela grande política em que prós e contras são medidos e consensos são construídos em torno das possibilidades existentes.

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