Sobre o caso da aluna e do professor no curso de ciências sociais

SOBRE O CASO DA ALUNA E O PROFESSOR NO CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

UMA CRÍTICA AO TRIBUNAL DAS REDES SOCIAIS

Acompanho o caso envolvendo uma aluna de Ciências Sociais e o professor Alípio absolutamente chocado. Evitei comentar o assunto porque, nesse tribunal das redes sociais, a maioria das pessoas está mais preocupada em sustentar de forma unilateral opiniões, vender uma imagem de si próprio idealizada e julgar tudo sem qualquer informação minimamente séria. Infelizmente, a sensatez foi para o saco faz tempo no chamado face ou insta. Porém, diante de tamanho enviesamento, é preciso ter coragem e expor o que se pensa, mesmo com o risco de ser levado à inquisição das redes por tabela.

Primeiro, há aparentemente um roteiro perfeito que nos leva a não ver o que de fato ocorreu. De algum modo, todo mundo se compadece com o esforço da mãe de fazer uma graduação diante das adversidades e agruras da vida. Mas é preciso trazer a própria criança para o evento. A questão é delicada. O ambiente, de fato, não é adequado. Há debates pesados e ela não deveria ser exposta. Também não é justo manter uma menina, que já passa o dia na creche, o terceiro período em uma sala de aula de curso superior. Uma criança de cinco anos não tem estrutura física e psicológica para isso. Imagine um debate sobre a história da sexualidade de Foucault ou sobre o ritual da felação de iniciação em que jovens se tornam adultos, através da ingestão de esperma dos pares adultos da tribo. Vi muitos professores alegando que já permitiram criança em sala de aula. Eu mesmo fui professor por 10 anos da instituição e já passei por essa situação. Nunca proibi. Só que era algo esporádico. Nesse caso, não. No áudio que vazou nas redes sociais – irei falar mais sobre ele -, o professor reclama “do entra e sai” de sala de aula e da constância do contexto. Na matéria da InterTv Cabugi, em que os dois lados são ouvidos – atitude que faltou a muita gente que se diz crítica de tribunais de exceção -, fica claro pela fala da mãe e do professor que era uma situação diária.

Segundo, o modus operandi da coisa toda é algo digno dos nossos tempos. Textos anônimos circularam junto com um áudio feito em sala de aula. A partir daí o linchamento começa e ninguém quer saber o que de fato ocorreu. Como disse, texto de corrente de whatsapp deveria ter, digamos assim, ao menos um olhar de maior estranhamento. E o áudio feito só pega um trecho do que aconteceu. Nós não ficamos sabendo o que estava ocorrendo antes. Como já disse, o professor reclama do entra e sai e parece fazer menção a um debate anterior sobre o assunto. Pelo áudio não há como saber. E mais: o linchamento anda de mãos dadas com notícias enviesadas e até falsas. Não ocorreu expulsão de sala. Como o próprio professor fala, “agora que terminamos a exposição do texto”, a aula já havia acabado. Depois do que foi dito, todo mundo foi embora. Ainda assim, nas versões que circulam pelas redes sociais, “um professor expulsa a mãe com a filha de sala de aula”.

O encaminhamento de tudo isso é bastante perverso porque expõe todos os envolvidos, sem qualquer apuração minimamente séria, baseada em textos anônimos de whatsapp e áudios editados. E a resolução, que deveria ser pelos canais competentes e mesmo gerar amplo debate e pressão pela criação ou consolidação de uma rede de apoio já existente, para que a mãe possa estudar e a filha fique num espaço adequado, fica em segundo plano.

Terceiro, por fim, o caso denota a anomia institucional pelo qual foi tomado o departamento de ciências sociais. O depto se tornou uma fogueira corrosiva de vaidades e egos com baixa produção de pesquisa em que cada um tenta impor seu ponto de vista ou vontade pela força – regimentos não são obedecidos, editais publicados de seleção de bolsa, mestrado, doutorado ou de professor são alterados no percurso de sua implementação ao sabor dos interesses de momento e quem ocupa posições de poder dificilmente encaminha questões como a que estamos tratando pelo e para os canais competentes. Falo isso porque é notório o uso nos bastidores, digamos assim, do caso para emblamar antigos ressentimentos e disputas entre os profissionais que compõem o depto. Como quase nada mais é resolvido de modo institucional, resta o subterfúgio de assassinar um desafeto no anonimato das redes. Revela também um problema sério de formação de parte dos alunos do curso. As manifestações vão no caminho do desprezo proferido contra regras e instituições. Numa situação ideial os discentes deveriam saber para que elas servem. Uma visão militante sobre o mundo tomou conta de tudo por lá, ao que parece. Questões teóricas e factuais não têm bom abrigo por ali.

A reitoria, em manifestação pública e atitude pacificadora, já deixou claro que irá investigar o caso, lembrou que o professor tem autonomia em sala e prometeu fortalecer informações sobre o auxílio creche já existente. É por aí que tudo deve caminhar. Um pouco de sensatez não fará mal.

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