Sobre teorias conspiratórias, imprensa e consolidação do bolsonarismo

CONCERTAÇÃO SOCIOLOGICAMENTE IMPOSSÍVEL

Por que grandes conspirações não funcionam? Ora, porque a teia de interação a ser montada é impossível na prática. É preciso combinar os termos da conspiração com muitas pessoas, estas dotadas de interesses e visões díspares, e isso é sociologicamente impossível. As estratégias de dominação são mais sofisticadas e “espontâneas”. Não existe um super ser pensante por trás de tudo.

Criticar a imprensa é atitude da democracia assim como também é legítimo avaliar a validade do ataque. Dizer que os principais jornais do país escondem que Bolsonaro tem um filho emaranhado em acusações de corrupção simplesmente não tem sentido factual.

Imagine, caro interlocutor, uma concertação editorial sendo montada entre periódicos com redações distintas e que competem entre si. Estamos falando de centenas de jornalistas, trabalhando e vendo uma ordem circular de que é preciso esconder que “Flavio” é filho do presidente.

Ora, foram esses mesmos jornais que fuçaram, remexeram e publicaram tudo. Eles estão mantendo o assunto há meses em suas páginas. Aliás, fazendo um trabalho que deveria ter sido feito pelos candidatos de oposição durante o pleito de 2018. Uma ordem vinda de cima, assim como a imaginada e gerou debate nas redes sociais, não funcionaaria mais na prática e vazaria facilmente.

A Folha, o Estadão e a Globo estão perdendo milhões com o boicote feito por Bolsonaro, que anda dando muito mais dinheiro para o SBT e Record do que o critério de audiência permite. Além disso, ele gasta bem mais também com redes sociais. O esgoto montado pelo presidente contra a imprensa também vem sendo revelado pela própria. Além da conspiração ser impossível, cabe também questionar: por qual motivo uma imprensa, atacada e prejudicada pelo poder, ajudaria este mesmo poder?!

PARA NÃO REELEGERMOS BOLSONARO

Repito, é preciso criticar a imprensa (Giddens e Bourdieu nos ensinaram que sequer existe sujeitos coletivos como Estado, Imprensa, etc, funcionando de forma integrada e organizada. O que há são “imprensas”, “estados”, etc). Mas acredito que, do ponto de vista normativo, é necessário estabelecer um certo cuidado para não jogar a água da banheira com a criança junto.

Vale lembrar que direita e esquerda contribuíram em parte para o desgaste da mídia. Não com suas críticas, mas com a propagação também dessas falsas teorias conspiratórias e o resultado se faz presente: com o descrédito das fontes oficiais, são as correntes de whatsapp que (des)informam.

A democracia não sobrevive sem liberdade de imprensa. E a nossa, mesmo com todos os seus problemas, apresenta a cara, assina os textos e pode ser processada por quem se sentir prejudicado. O texto anônimo não tem como passar por esse crivo. Derivações como “extrema-imprensa” e “partido da imprensa golpista” nos deram Bolsonaro. Que aprendamos com os fatos. Do contrário, o capitão levará de novo em 2022 e, se isso vier a ocorrer, não será uma surpresa não contarmos mais com uma imprensa para criticar.

Deixe um Comentário