Texto publicado em março de 2020 – montando a narrativa: por que Bolsonaro atua contra a quarentena

Escrevi os textos abaixo, um no início de março e o outro no fim de março. Acredito que não errei. Aliás, só subestimei um aspecto: no Brasil morte de pobre não é um evento que gera indignação.

Texto publicado em março de 2020 no Potiguar

MOTANDO UMA NARRATIVA: POR QUE BOLSONARO ATUA CONTRA A QUARENTENA

Um erro básico na análise política é idealizar humanos. Um certo sábio certa vez disse que ficamos mais tristes com a perda do patrimônio do que com a morte do nosso pai. É em cima disso que Bolsonaro empreende do ponto de vista político. A racionalidade – extremista e populista – pensa no longo período.

Vamos por partes:

  1. Um contingente muito maior de pessoas sentirá mais a crise econômica brutal que se avizinha do que a morte pelo coronavírus.
  2. Esse contingente maior não vai querer saber se a quarentena funcionou. Vai olhar principalmente para os seus empregos e empresas perdidos. E procurará culpados.
  3. Só quem vivenciou de alguma forma a morte ou complicações pela pandemia, através de parentes e amigos, saberá mais diretamente a gravidade da doença.
  4. Os próprios acometidos, em média 85%, terão gripe relativamente normal. Reforçarão o discurso da “gripezinha”.
  5. É diante desse cenário que Bolsonaro atua. Ele prepara o alçapão para o momento pós-quarentena, já que sabe que será responsabilizado pela crise dos próximos anos. Daí já construir um bode expiatório – o sistema (governadores e mídia).
  6. Uma consequência não intencional da quarentena pode ser, por um aspecto, fortalecer Bolsonaro. Com a queda das mortes, seu discurso ganha força.
  7. Mas ainda assim será preciso explicar os que se foram com a pandemia. E aí entra sua narrativa: “são pessoas idosas ou já doentes, que podem morrer de Coronavírus ou de gripe comum”. O fatalismo estabelecido na forma de um destino inevitável amansará as consciências de quem berrará amanhã contra as medidas de quarentena e suas consequências econômicas.

Dará certo? Eu não sei. Mas está claro que a racionalidade posta na movimentação é essa. Ele tenta salvar sua reeleição ao manter a tese de que luta contra um sistema que é capaz de politizar o combate contra uma doença, mesmo que isso custe milhões de empregos.

Cálculo eleitoral macabro

Texto publicado no final de março no Potiguar

A imprensa nacional começa a publicar textos sobre uma lógica que já tinha desvendado – às favas com a modéstia – por aqui há um mês (colocarei o link ao término do texto).

O presidente Jair Bolsonaro age a partir da seguinte lógica, ao se posicionar contra o isolamento. Em 2022, a crise econômica será assunto de milhões de eleitores e terá efeito perceptível maior do que a morte hoje de 50, 100 mil pessoas.

Então, ele arma o bote para dizer: estão vendo, eu avisei que a crise econômica viria. Toda sua incursão contra o devido combate da pandemia se alicerça em tal cálculo.

É a única forma de buscar a reeleição? Não. Mas para Bolsonaro seria difícil agir como um político moderado, que procura se cacifar através da união dos diferentes grupos no atual momento. Para tanto, ele teria de ficar ao lado do “sistema”, o que colocaria em risco o relacionamento com sua base radical.

Ao agir assim, criando falsa dicotomia entre saúde e economia, vai morrer mais gente? Tudo indica que sim. Porém, o alvo é a reeleição e não salvar vidas.

PS. E não duvide: ele vai jogar as mortes nas costas dos governadores e prefeitos, sob a falsa alegação de que o isolamento levou o vírus para a casa das pessoas. É a fake news de seu conselheiro, o deputado federal Osmar Terra.

PS.2. Do ponto de vista político, o isolamento pode ser inimigo do isolamento. Se ele surtir efeito, morrendo pouca gente, irão dizer que, de fato, não passava de uma “gripezinha”.

Deixe uma resposta