Todo mundo é ladrão, menos eu

TODO MUNDO É LADRÃO, MENOS EU

A crise no Brasil apresenta várias faces. Gostaria de apontar uma em particular, que acredito ser comumente menosprezada mas de suma importância. Na atual situação de revés econômico e político, a crença de que todo mundo rouba foi completamente banalizada.

A lógica é a de que o homem é o lobo do próprio homem. Como se fala em linguagem popular, diante de tal cenário, não é possível colocar a mão no fogo por ninguém. Pior. Sequer há o benefício da dúvida. Qualquer versão, se apresentar viés negativo contra alguém ou alguma organização, não importa a história de serviços prestados em jogo, logo ganha fé pública de verdade irrefutável.

É inimaginável supor que instituições se sustentem a partir de tal crivo. Não é preciso seguir leis e procedimentos de boa conduta, se o agente já parte do pressuposto de que o outro age munido por intenções inconfessáveis. O desrespeito e a predação viram regra. O capitalismo não constrói, só incentiva a aventura.

O ponto de vista de que todo mundo é ladrão e o sujeito, contraditoriamente o único inocente, esfacela nossas teias de relacionamento. Ou melhor, forja cadeias de interação alicerçadas na incapacidade de confiar e construir coisas boas em conjunto.

É incrível como, no caso da Funpec por exemplo, basta a imprensa local citar valores elevados sobre contratos executados – ou ainda em andamento -, para que os leitores já concluam que há corrupção. Estou sendo abordado por colegas e leitores que me questionam: “você não vai falar sobre a roubalheira da Funpec/UFRN?”. E estou respondendo com a mesma indagação: “qual?” A pergunta da minha parte gera um curto circuito contra a falsa obviedade. Ainda assim, ouço: “ora, daquele contrato de 50 milhões. Os valores são muito altos”. Veja, caro leitor, não há nada estabelecido. Só que as pessoas não sabem quanto custa uma campanha nacional de propaganda. Porém, isso já vira motivo para acusações e ataques, que, às vezes, partem de meros prints de títulos de matérias em circulação no WhatsApp.

A ideologia do acuse primeiro e procure saber o que aconteceu depois veio (ou voltou) com toda força com a operação lava jato e os protestos de 2013 e 2015. Uma histeria do combate à corrupção se instalou. Apesar de revelações importantes sobre a forma como a política foi escravizada pelos donos do dinheiro, quando se avalia os números de pessoas acusadas e processadas e eles são comparados com condenações efetivas, percebe-se o quanto a generalização, mesmo nessa grande operação, é falsa.

(Convido o interlocutor a procurar tais dados. Há estudos sérios a respeito)

Ainda assim, a visão lava jato do mundo fez morada. E enquanto ela mandar nas nossas relações, não conseguiremos nos reunir para cuidar de uma praça numa comunidade, nem muito menos cultivar um forte sentido de preservação de instituições liberais e democráticas. A saída da crise passa pelo retorno da fé no brasileiro. Não há caminho fora disso.

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