Glenn Greenwald alçado a herói da resistência; jornalistas sem parachoque pagarão a fatura

A denúncia contra o jornalista Glenn Greenwald feita pelo ministério público federal de Brasília não se sustenta. Alegar que ele ajudou ou participou das interceptações contra autoridades que redundaram na chamada #VazaJato contraria a própria lógica dos diálogos que ele travou com o hacker e são públicos.

A Polícia Federal já se manifestou e não viu crime algum. Apenas o trabalho de quem recebe informações de uma fonte, direito assegurado pela constituição. Ainda assim, sem ser investigado, o MPF produziu a denúncia. Certamente, ela não prosperará. Mas gerará algum constrangimento ao Supremo Tribunal Federal encerrar o processo. Com a guerra entre os polos ideológicos, muitos não querem saber a respeito da verdade dos fatos. Só de versões convenientes.

O procurador da república Wellington Divino Marques de Oliveira é o mesmo que acusou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por, digamos assim, um crime de opinião contra o ministro Sérgio Moro. Há incentivos para que membros do MP e do Judiciário atuem arregaçando os espaços institucionais e direitos arduamente conquistados. O presidente Jair Bolsonaro colocou alguém subserviente na Procuradoria Geral e já disse que fará uso de critérios ideológicos – “alguém terrivelmente evangélico” – para preencher o cargo de ministro do STF. A alopração e o autoritarismo permitem boas perspectivas de carreira.

O escancarado ataque à liberdade de imprensa não encontrará sobrevoo no cenário específico narrado. Os profissionais de imprensa do mundo inteiro repudiam a perseguição contra Glenn Greenwald. Ele foi alçado a condição de resistência ao governo autoritário de Bolsonaro. O tiro do MPF saiu pela culatra. Seu sentimento de vingança e a ideia de que imprensa boa é a imprensa amiga ficaram escancarados.

Mas o problema não pára por aí. GG tem como se defender, prestígio e uma rede influente aqui dentro e lá fora. E, por mais que um jornalista não goste dele, se vê obrigado a sair em sua defesa porque, afinal, é também o seu direito de trabalho que se encontra em jogo. O que deve causar maior preocupação é o fato de que nem todo jornalista anda com esse parachoque. Quando esticado muitas vezes, um elástico não volta para a mesma posição e perde sua força. Assim acontece com o autoritarismo contra as instituições. Os mais fracos, como na maior parte das situações, pagarão.

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