Sobre as projeções da UFRN divulgadas pelo governo e o desenrolar da crise no RN

SOBRE AS PROJEÇÕES DA UFRN DIVULGADAS PELO GOVERNO E O DESENROLAR DA CRISE NO RN

Frase que serve também pra o RN e pra quem acha que há exagero diante da situação:

“Tudo que fizermos antes da pandemia parecerá alarmista. Tudo que fizermos depois parecerá inadequado”.

Michael Leavitt, ex-Secretário do U.S. Department of Health and Human, março de 2020.

SOBRE O ESTUDO DA UFRN

A força do momento impõe a necessidade de efetivar análises políticas diante de temas mais extremados, em especial sobre assuntos foras da rota cotidiana.

Muito se falou desde que o governo do RN divulgou ontem (7) um estudo feito por profissionais da UFRN sobre as perspectivas de crescimento do coronavírus no Rio Grande do Norte. O dado de óbitos no patamar de 11 mil já em meados de Maio, com o esgotamento do sistema de saúde no início do próximo mês, gerou reações distintas. Alguns ficaram chocados, outros céticos. Não foi incomum encontrar a acusação contra o estudo de terrorismo.

Pois bem, no cenário explicitado, apenas 42% dos potiguares participam do isolamento. Ora, este número é melhor hoje. Conforme avaliação da movimentação dos smartphones por geolocalizadores também publicizado por base de pesquisa da UFRN, aproximadamente 52% dos cidadãos aderiram à ação. Como disse o secretário adjunto de saúde Petrônio Spinelli, em recente entrevista coletiva, é provável que o número seja atenuado pelo melhor quadro – mas ainda insuficiente – de isolamento.

Portanto, primeira ideia de relevo. Trata-se apenas de uma projeção baseada nas perspectivas de evolução da pandemia em nível mundial aplicada ao plano local. Como praticamente ninguém foi atrás de olhar as premissas, o debate se desenrolou entre atacar ou defender o divulgador.

O CENÁRIO IRÁ SE CONCRETIZAR?

Ele tenderá a ser numericamente um pouco menor. E não há aqui qualquer acusação contra o estudo da UFRN. Como disse, hoje temos um percentual de isolamento melhor do que o que alicerçou o estudo. Porém, isto não significa tecer qualquer argumentação mais otimista.

Uma menor quantidade parcial de casos pode jogar o colapso do sistema apenas para alguns dias ou semanas para frente, dada a absurda disparidade entre o crescimento do contágio e a finitude de leitos. Temos hoje no Rio Grande do Norte 962 respiradores disponíveis e não conseguiremos mais unidades facilmente. Há falta no mercado mundial e os 600 comprados pelo consórcio nordeste foram confiscados pelos EUA no aeroporto de Miami para uso dos americanos.

É por isso que os políticos bolsonaristas não criticam o governo e as prefeituras pela falta de equipamentos, pois teriam de cobrar o seu presidente, que já bateu continência diversas vezes pra Trump, sobre o ocorrido.

QUEM FALA HOJE EM TERRORISMO PEDIRÁ DESCULPAS AMANHÃ

Os críticos do estudo falam hoje em terrorismo. A minha hipótese – e quero ser cobrado por ela – é que amanhã essas pessoas serão cobradas como aqueles que desenharam a crise.

É preciso ter a mais absoluta compreensão de que o estudo não será lembrado exatamente pelos números, mas pelo alerta que gerou.

E faça um exercício de projeção – duro -, caro leitor: imaginemos que, ao invés de 11 mil, venham à óbito a metade disso ou até menos. Ora, não há qualquer possibilidade política de minimizar a importância de 2, 3 ou 5 mil mortes num estado pequeno como o nosso.

O que quero dizer é que o debate não será matemático e quem for por aí será criticado. Ele circulará em torno do sofrimento, de filas de caixões, terrenos inteiros separados para sepultamentos e de vídeos de pessoas morrendo sem atendimento pelo colapso do sistema (nunca subestime a perversidade que circula em grupos de whatsapp).

Não há aqui nenhuma previsão da invenção de uma nova roda. Este foi o movimento perpetrado em outros países. Os políticos que emitiram qualquer sinal de minimização da pandemia foram severamente punidos pela opinião pública, chegando a condição de terem de pedir desculpas aos eleitores pelas mortes. Se eu fosse político, não deixaria qualquer rastro que amanhã possa vir a ser interpretado como desleixo. O coronavírus chega rápido e a ira do povo virá com ele.

CRESCIMENTO EXPONENCIAL

As pessoas têm interpretado o coronavírus em termos de crescimento simples, linear. Mas não é assim.

Ele é aparentemente sorrateiro. Chega com poucos casos e cria a impressão de controle. Ocorre que, durante espaços curtos de tempo, duplica de tamanho sobre uma base pequena e essa base vai crescimento e dobrando. O sujeito leigo experimenta esse processo em termos de “explosão”. Mas a perspectiva estava dada lá atrás.

Daí o desdém inicial ganhar (falsa) aparência de verdade imediata.

SUBNOTIFICAÇÃO

Um dado pouco debatido na imprensa local é a imensa subnotificação. Acredito que vi o assunto apenas em reportagens da Tribuna e do Blog do Dinarte Assunção.

O fato é que não estamos fazendo exames. O governo federal prometeu 10 milhões de testes, mas até agora só chegaram 500 mil em todo o país. A imprensa nacional denuncia elevação aguda de internações e mortes por doenças respiratórias ainda não classificadas.

É um problema que pode gerar adiante caos ainda maior quando o quadro explodir de vez. Estamos no escuro.

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