A CPI da Covid e a licença bolsonarista nacional para mentir

Estou acompanhando a CPI da Covid-19 a partir de um acontecimento pessoal. Tenho um colega que ficou meses apoiando o presidente Jair Bolsonaro negar a compra da Coronavac. Foram diversas mensagens trocadas, sempre dizendo que era inaceitável adquirir a “vachina”. Porém, quando o presidente mudou pela pressão do brasileira que queria se imunizar, o meu colega mudou junto. Assim como o presidente, diz hoje que nunca foi contra vacina. Bolsonaro ensinou isso ao país.

Os bolsonaristas mentem e trocam a versão, na medida em que os fatos os deixam expostos. Dessa maneira, Ernesto Araújo, ex-ministro de relações exteriores, nunca falou mal da China. Eduardo Pazuello nunca indicou Cloroquina. Jair Bolsonaro não atrasou compra de vacina. E os eleitores acompanham, faltando com a verdade junto, ainda que existam tweets, lives, declarações, pronunciamentos com registro de tudo.

Como o CPI não teve coragem de prender o ex-secretário de comunicação Fábio Wajngarten como um gesto político de respeito aos parlamentares, quando este se contradisse em inúmeras oportunidades, o precedente foi aberto. Agora, conforme as testemunhas, o presidente nunca ignorou a pandemia, a coordenação sempre ocorreu, ninguém falou contra máscara, todos apoiam medidas de isolamento e por aí vai.

Os freios do superego foram retirados. Os bolsonaristas se sentem autorizados a agir como se a realidade não existisse, assim como aquele denominado por eles de “Mito”. Como se ela pudesse vir a ser alterada a partir da mera troca de discurso. Falei e fiz algo ontem? Não importa. Basta dizer diferente hoje e contar nova versão.

O método faz com que a gente não avance no terreno dos acontecimentos, já que eles não existem e estão sempre em disputa discursiva nessa condição de pós-verdade. Além de corroer as instituições, essa mudança cultural também nos divide de uma forma em que consensos básicos de convívio acabam sendo impossibilitados. Aliás, este é o objetivo de quem nos governa, nos dividir para reinar.

A CPI tem um desafio. Demonstrar que as mentiras contadas pelos depoentes não interferirão nas investigações da Comissão. Ela vem gerando fatos novos, que é o que importa. Mas se conseguir criar uma ambiência de reversão dessa pós-verdade instalada pelo bolsonarismo em parte da sociedade, já dará uma grande contribuição ao Brasil. Ao indicar que os fatos são inegociáveis, o enfrentamento da pandemia não caminhará pelas linhas bizarras das teorias da conspiração e do combate ao “globalismo”, ganhando o devido alinhamento de ações racionais.

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