A denúncia ambulante do que foi a pandemia em Natal

Uma médica com poucos anos de formação e zero atividade acadêmica foi alçada em Natal a principal voz de aconselhamento sobre como os cidadãos deveriam se comportar diante da pandemia.

Com microfones livres, dizia que a ivermectina teria poder absoluto contra o novo coronavírus, que isolamento social aumentava o contágio e que era só utilizar cloroquina na dosagem correta, que ela curaria.

O profissional era uma máquina de citar dados, números e supostos estudos, o que impressionava o público leigo. Porém, bastava uma reles conferência das fontes para saber que aquilo era saco vazio. O pensamento único se instalou e qualquer crítico foi logo atacado como coronalover.

Os indícios da lorota começaram a ficar indisfarçáveis. Alertas das agências sanitárias do Brasil e do mundo davam conta da impossibilidade de tais medicamentos gozarem de qualquer efeito contra covid. Estudos começaram a demonstrar que a crença nas falsas saídas faziam com que as pessoas baixassem a guarda, levando ao maior contágio. Os hospitais do RN ficaram lotados de gente que se achou protegida pela ivermectina.

Mas a aposta no absurdo não parou. Era preciso sustentar o projeto de poder, que explodiu em avaliação positiva durante a pandemia em Natal, distribuindo o precioso – e já aquela altura caro – medicamento ingerido agora cotidianamente por uma elite local amedrontada, auto imaginada como privilegiada por ter o remédio protetor e que cedeu a bruxaria. E a médica se prestava ao papel.

Certa vez, um jornalista disse a este blogueiro – “ele está sendo usado. No dia que esta história ficar insustentável irão descartar”. Não deu outra. Ela foi jogada ao mar como entulho desconhecido.

Só que o que jurou – em vão – proteger o juramento de Hipócrates aproveitou para obter projeção nacional no mercado das ideias falsas, que anda aquecido com o bolsonarismo alinhado aos processos de monetização e teorias conspiratórias das novas redes sociais. Tanto que passou a ser tratada como especialista pelo governo federal e pelos parlamentares ligados ao governo.

Da ivermectina pulou para a conspiração antivacina. O discurso contra os imunizantes ficou insofismável. Estava lá claramente descrito em suas redes sociais agora constantemente derrubadas pela propagação de conteúdo antivacina e fake news.

Os que construíram sua imagem e fama até tentaram ajudar, mas não teve jeito. O discurso antivacina é tão absurdo e tão desconexo da realidade que tornou impossível qualquer tipo de solidariedade. Sair de perto e fazer de conta que as ideias alopradas, claras desde o início, só foram recém reveladas virou o caminho.

Agora o profissional é uma denúncia ambulante do que foi a pandemia em Natal.

E mais. Ela quer mais. Quer as cadeiras de poder comumente ocupadas pelos chefes de quem fez a sua fama na cidade. Talvez saia daí a verdadeira vingança da realidade contra os que brincaram de curandeirismo numa situação de calamidade de saúde pública.

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