A ivermectina, a ciência e a pseudociência

Seria ótimo ter um remédio fácil e barato que previnisse a covid-19. Objetivamente, no entanto, não existe. Basta acompanhar os cientistas que trabalham com o tema. O consenso é insofismável. Cabe reiterar: falo cientista e não médico. As duas vertentes não são necessariamente sobrepostas.

Mas como embalar a lorota? Ora, alegando que análises observacionais comprovam a eficácia do remédio. Os médicos defensores da ivermectina usam o subterfúgio retórico e não citam estudos randomizados. Ou seja, ou alegam que a ivermectina serve para covid-19 com base em observação por ignorância em metodologia científica, por um desejo cego de resolver o problema ou por pura má fé.

Por qual razão? Vamos lá. Observação não prova nada. Só gera no máximo hipóteses que precisam ser testadas através do emprego da estatística, dando a um grupo selecionado aleatoriamente significativamente representativo o remédio e a outro um placebo. Estudos eleitorais aplicam testes idênticos em algumas de suas pesquisas.

Na observação o analista empreende uma ação e percebe de forma precária se ela levou a um resultado. Mas o pesquisador pode ter sido enganado pelo seu desejo, por inúmeras outras variáveis não controladas, pelo estabelecimento de correlação espúria.

Vou citar um exemplo bem absurdo, mas apenas para me fazer entender: alguém junta roupa suja em um canto e, de repente, baratas saem do amontoado de pano. O sujeito pode intuir, pela observação, que roupa suja produz barata.

A cloroquina, o coquetel para HIV e outros remédios mostraram aparentemente resultados positivos pelo viés da observação contra o coronavírus. Mas quando foram objetivamente testados, não apresentaram eficácia contra Covid-19.

A situação hoje é ainda mais complicada, pois 99% de quem é infectado pela doença que mais matou em 2020 no Brasil não irá a óbito. Ou seja, a percepção de que o remédio está agindo pode esconder o simples fato de que foi o seu próprio corpo lhe curou e não a droga empregada.

Nos textos em que a análise observacional é utilizada, normalmente os próprios autores reconhecem que são análises preliminares. A nossa imprensa local, entretanto, minimiza avisos sempre presentes neste sentido. O macete para confundir desejo com realidade é usar um título positivo/promissor na postagem. A função da chamada distinta do conteúdo do texto normalmente é caçar clicks. Não raro também serve para espalhar falsas notícias nas redes sociais, protegendo os que defenderam o pseudo tratamento durante a pandemia.

Conforme os cientistas, não há estudos randomizados para ivermectina contra Covid-19. E as agências de saúde do mundo não recomendam o seu emprego neste sentido, muito menos na perspectiva preventiva.

A cloroquina e a azitromicina são distintas, pois já há testes padrão ouro demonstrando que eles são ineficazes contra Covid-19. Aí não cabe sequer mais dúvida.

Saber a diferença entre observação e uma tese estatisticamente fundamentada já é bem importante para não cair na pseudociência.

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