A reação ao fechamento de hospital com problemas estruturais é sintoma do que trouxe o RN até aqui

O discurso sobre a racionalização dos gastos públicos é bonito, mas enfrenta entraves na prática porque contraria interesses corporativos. A equação está na base do nosso atraso.

O RN tem um problema antigo tecnicamente diagnosticado. Há escolas e hospitais demais. As redes ficam dispersas, os recursos físicos, humanos e financeiros acabam sendo desperdiçados. A carência de resultados vira regra.

Qual é o entrave? É que, mesmo tendo mais hospitais do que o estado do Ceará, esta lógica beneficia a confecção da escala dos médicos, estimula contratos com fornecedores e cooperativas, gera hipertrofiados aluguéis. Trata-se de um gigantesco poder de pressão.

O prognóstico de que o RN precisa ter uma rede básica mais forte – que é mais barata – e menos hospitais – mais caros – vem desde o governo Rosalba. Não há aqui qualquer novidade.

O mapeamento é semelhante para a situação da rede escolar. Há unidades com algumas poucas dezenas de alunos, o que requer desde ASG, fornecedores, custo com segurança, professores, até diretor. E, cabe iluminar, não é o aluno quem ganha, nem a máquina pública.

Os sindicatos, fornecedores e a oposição da vez simplesmente utilizam o medo da população de ficar sem o serviço para que tudo permaneça como se encontra. Isto é: uma rede de serviços cara, irracional e de qualidade duvidosa. Os contratos permanecem preservados, os profissionais produzem uma escola de acordo com suas vontades pessoais e o Estado paga a conta.

O debate é antigo e depende do oportunismo, óbvio, de ocasião. A então governadora Rosalba Ciarlini tentou fechar hospitais e endurecer com a escala dos médicos, colocando ponto eletrônico. Também reescalonou escolas.

Não adiantou. A classe médica, com apoio de entidades de esquerda, fez a chamada passeata do fio de aço. Rosalba recuou das medidas adotadas.

Depois veio Robinson Faria. Ainda junto com o PT, Robinson voltou atrás sobre o fechamento de escolas. A medida foi comemorada como uma ação boa. O então secretário de saúde, Ricardo Lagreca, procurou também encerrar o funcionamento de hospitais hoje utilizados para prestar serviços básicos, o que deveria ser feito pelos postos de saúde mais baratos e ágeis. Após pressão sindical e da assembleia, organizando até passeatas de rua, o governo voltou também atrás de sua decisão.

Mantendo a regra, agora foi a hora do atual do governo, o de Fátima Bezerra. O hospital Ruy Pereira está alojado num prédio sem condições de funcionamento e que custa ao erário, apenas o espaço físico, 2,4 milhões por ano. O corpo de bombeiros condenou o equipamento, de acordo com o governo. Alguém se importa? Parece que não. Há quem diga tranquilamente que não há problema porque o recurso é federal. E ele não poderia ser utilizado de outra maneira?

A reação é a de sempre. Rostos representativos de interesses setoriais alegam que a população vai ser prejudicada. Quem fez parte da gestão de ontem e que propôs algo idêntico, agora chama a nova administração de desumana. Por fim, o passo para trás é dado e tudo é gerado para nada andar. É parte do estado de coisas que nos trouxe até aqui.

Não adianta reclamar da carência de recursos e nem muito menos ser otimista diante do cenário estabelecido. Uma sociedade civil desorganizada, uma imprensa que não informa o que está em jogo e corporações fortíssimas não podem nos levar muito longe. E se conseguir fazer o RN se mover, tenha certeza caro leitor: não será para melhor.

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