Ao invés de ataque, SINMED/RN e AMRN devem nota com pedidos de desculpas ao RN

O sindicato dos médicos do RN e a Associação Médica do RN assinaram nota, defendendo a autonomia médica em favor do tratamento precoce. Além disso, criticaram o que chamam de politização contra a classe médica pintada por eles como apartidária (nota ao término do texto).

Chega a ser bizarro que essas associações saíam dos seus pontos, para tecerem ataques contra quem quer que seja nessa pandemia e ainda mais de uma forma abstrata, sem dizerem exatamente quem e o que chamam de militantes defensores de interesses inconfessáveis.

Até porque, se há associações que não podem falar em partidarismo e na proteção do que se revelou objetivamente necropolítico no Rio Grande do Norte nessa pandemia, são essas entidades. Ao contrário da ausência de nomeação da nota, aqui haverá assertividade. Ou seja, será dito exatamente o que o Sinmed e a AMRN fizeram durante a pandemia, atrapalhando o debate público, por um lado, e guiando agentes para o caminho errado, por outro.

O CONTEXTO

A manifestação dessas entidades médicas surge na esteira de um ataque contra o jornalismo profissional do Rio Grande do Norte, que é composto por muita gente séria e que merece respeito.

Mas qual a razão da rusga. É que, diante do acúmulo de estudos e pareceres científicos de agências nacionais e internacionais, fabricantes, etc, sobre a ineficácia de medicamentos abraçados e defendidos por essas associações desde o início da pandemia, devidamente reportados pelos veículos de comunicação, alguns médicos resolveram atacar o mensageiro.

A Anvisa, a OMS, a Fda e outras agências sanitárias do mundo deixaram os defensores de cloroquina e ivermectina completamente descobertos. As mais prestigiosas revistas científicas da mesma maneira. Uma forma de tentar esconder que essas associações defenderam um tiro no escuro irresponsável contra essa pandemia – e não sem alertas – é investir contra quem publica a contradição – o comunicador. Se o debate fosse de fato científico, eles rebateriam o que o mundo vem dizendo. Sem condições para tanto por motivos óbvios, sustentam a politização, mantendo o alinhamento com o negacionismo presidencial de quem são apoiadoras incondicionais desde primeira hora e miram suas artilharias contra quem nada tem relação. A própria tática revela quais são suas ideologias.

A NEGAÇÃO DA PANDEMIA E O ATAQUE AO HOSPITAL DE CAMPANHA

Em matéria de pandemia, o sindicato dos médicos do RN segue margens próximas aos 100%, só que de erro. Cabe lembrar, por exemplo, o modo como seu presidente atacou a tentativa do governo estadual de se preparar para a pandemia, acusando-o de alarmismo (a mesma acusação ocorreu quando a segunda onda já estava dada como certa).

O Sinmed RN entrou na justiça para que um hospital de campanha não fosse erguido, alegando em diversas oportunidades que nossos leitos seriam suficientes. Em manifestações públicas que o Google não deixam esquecer, disse que nos comparar com a Itália era um absurdo e uma forma de levar o pânico com intenções políticas aos potiguares. Alegou que o calor nos salvaria, uma afirmação completamente desprovida de evidências, mas espalhada pelo governo de Jair Bolsonaro lá no começo do problema. O resultado dessa avaliação é conhecido.

O sindicato estava tão perdido que chegou a contratar show da banda Grafith em plena calamidade pública para tocar no gramado do hospital Walfredo Gurgel, uma comemoração do dia do trabalho.

AÇÃO CONTRA O ISOLAMENTO SOCIAL E A DEFESA DA CLOROQUINA PARA IMPEDIR HOSPITALIZAÇÕES

Em Maio de 2020, o mesmo sindicato se alinhou a entidades comerciais na defesa da abertura do comércio contra o isolamento social, a única ferramenta que objetivamente tem baixado a curva toda vez que o sapato aperta. E diante do crescimento da ocupação das UTIs sentenciou em nota pública distribuída à imprensa, que bastava empregar Cloroquina que os pacientes não seriam mais hospitalizados. Óbvio que aconteceu justamente o contrário. Em Junho e Julho tivemos o pico de mortes da pandemia no RN. Enquanto isso, se acumulavam estudos sobre a ineficácia da Cloroquina e os principais países do mundo já proibiam o seu uso contra covid, com uma manifestação expressa nessa perspectiva da OMS.

ENDOSSO A OPERAÇÃO IVERMERCTINA EM NATAL, A CIDADE CHEGA A PIOR SITUAÇÃO DO RN

Tanto o Sinmed, como a AMRN, seguem endossando medicamentos ineficazes contra covid-19 (note, caro leitor, que eles fazem nota pela defesa da autonomia da prescrição do tratamento precoce porque trata-se de agenda política. Por isso, ignoram os ataques contra os médicos que se fiam pela ciência e são chamados de comunistas por blogs de extrema direita de Natal por não receitarem remédios ineficazes). E, antes que partam para o diversionismo, deixando o conteúdo de lado e atacando a fonte, não é este blogueiro quem fala que são ineficazes, mas, mais uma vez, são as autoridades sanitárias daqui e de fora, revistas acadêmicas, cientistas, associações médicas nacionais e internacionais, o que se reflete no público abandono de tais medicamentos pelo mundo.

A esse propósito, suas manifestações públicas em defesa da profilaxia com ivermerctina contra covid-19 em Natal estão também devidamente documentadas na imprensa da cidade. Ditos seguidores da ciência, silenciaram para uma administração em massa de um mata piolho pelo prefeito de Natal sem nenhuma evidência para tanto. Resultado: Natal saiu da primeira onda com os piores números do RN. Estudos têm demonstrado e também publicados pelo jornalismo que tanto incomoda, que não apenas o uso indiscriminado do medicamento faz mal, como também gera uma maior exposição dos seus usuários ao vírus por falsa sensação de proteção. Recentemente, o Lais UFRN publicou que 71% dos internados graves no RN fizeram uso profilático com ivermectina.

USO DE SITES QUE PUBLICAM FALSOS ESTUDOS CIENTÍFICOS PARA CONTINUAR NA DEFESA DA CLOROQUINA E DA IVERMERCTINA

Para não deixar a peteca cair, a associação médica do RN fez um evento, para espalhar a falsa notícia de que a ivermectina reduz o risco de contrair Covid-19 em 75%.

Poxa, seria fantástico se fosse verdade. O problema é a fonte. Um site chamado C19STUDY, que especialistas ouvidos pela imprensa alegam ser um espaço virtual sem qualquer critério acadêmico de publicação. Tais repositórios de falsos estudos se multiplicaram com a pandemia e cientistas têm alertado para que eles não sejam levados em consideração, em decorrência das correntes de whatsapp distribuídas a partir deles.

Tivesse mesmo apego pela ciência, seus procedimentos e modo de pensar, não pela proteção do erro que cometeram no verão passado e agora trabalha pra tentar normalizar, a associação médica jamais faria o que fez e se somaria a Nature, Jama e The Lancet. Levaria em conta os pareceres das autoridades sanitárias, dos prestigiados centros médicos dos EUA, o que tem dito a organização mundial de saúde ou a OPAS. Mas não: incentiva o obscurantismo numa calamidade pública de saúde. E é devidamente caracterizada a consequência de falsa informação numa pandemia.

PROFISSIONAIS PRESCREVEM MEDICAMENTOS EM ENTREVISTAS E NAS REDES SOCIAIS: ENTIDADES SILENCIAM

Pelo histórico, o Sinmed a AMRN devem notas de desculpas e algumas explicações. Além de revisarem os próprios erros, poderiam dizer se concordam com a prescrição de remédios em redes sociais e em entrevistas que seus associados estão fazendo. Se acham correto a defesa do uso de cloroquina nebulizada feita pela médica que fizeram desagravo na nota em rádios da cidade, mesmo com pareceres contrários do conselho federal de farmácia, da sociedade de pneumologia e com investigações abertas por conselhos regionais em outros estados brasileiros por mortes gerada pelo tratamento.

ENTIDADES QUEREM CALAR QUEM VEM APONTANDO OS SEUS ERROS E DE SEUS PROFISSIONAIS

Quem é que não reconhece a importância do médico e de outros profissionais nessa pandemia? A abnegação de médicos, enfermeiros e de outros trabalhadores está todos os dias na imprensa. Levar o debate para esse plano é uma forma de passar recado, escondendo a motivação da nota.

Não falta esse reconhecimento e não é isso que a nota expressa. A ação busca silenciar os críticos e questionadores – inclusive também médicos – da atuação negacionista de médicos e de outros profissionais, colocando neles uma pecha de dotados de interesses inconfessáveis negativos e mesquinhos.

Ora, é óbvio que essa pressão não será aceita por jornalistas, críticos, pesquisadores, por ninguém. É preciso responsabilidade e, se alguém ocupa um espaço público, fica famoso, ganha dinheiro e projeção a partir dele – e isto não é um problema em si -, deve saber que também será indagado pela veracidade do que diz, confrontado pelas contradições do seu discurso ou pela não realização de suas previsões e promessas. Funciona assim nas democracias.

E, aliás, ainda bem que acontece desse jeito. Teríamos uma tragédia muito maior no nosso estado caso as opiniões do Sinmed e da Amrn fossem levadas em consideração sem o contraditório na esfera pública e nas ações governamentais. Não adianta espalhar brasa, a história é implacável e costuma ser dura contra quem nega a ciência. Não é possível agir contra ela e vencer.

Nota na íntegra

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