Bolsonaro corre perigo

BOLSONARO CORRE PERIGO

O ex-senador Romero Jucá, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo algumas semanas atrás, deu a senha: para governar, Bolsonaro terá de abandonar o discurso de campanha e fazer política, isto é, construir, administrar uma coalizão e lutar pela implementação de uma agenda. O dilema é que Bolsonaro teima em manter a linha da campanha, se comporta como um político com discurso antissistema e com práticas de deputado advindo do baixo clero.

A “nova política” é problemática porque antidemocrática. Bolsonaro quer que o governo fique com o bônus sobre tudo, seu grupo ocupe os melhores cargos do governo e os demais arquem com o ônus das negociações e aprovações de projetos importantes, mas impopulares. Trata-se de uma busca desmedida de concentração de poder com o inconsequente desrespeito às relações com os demais poderes. Seus parlamentares mais próximos apoiam manifestações que pedem o fechamento do STF e o executivo age na base do desleixo com o congresso.

A ambiência é a pior possível. A avaliação de Bolsonaro despenca nas pesquisas de opinião numa correlação típica entre um candidato que prometeu muito durante a campanha, gerou inúmeras expectativas e até agora nada colocou no horizonte de quem não irá se satisfazer com pauta moral. Quer, na verdade, melhoria de suas condições de vida. Ele obviamente não é responsável pela crise, mas é o presidente da república e deve liderar, algo que ainda não fez.

O dito mercado e a classe política já deram sinais do drama que Bolsonaro representa. A realidade se impôs diante dos ingênuos (ou perversos) defensores da tese de que, uma vez eleito, o ex-deputado seria moderado pelo poder. Jair Bolsonaro é constante gerador de instabilidade econômica com suas falas. Tanto é que não tem ministros, mas pessoas que perdem dias tendo de desdizer ou explicar o que foi por ele afirmado. Sua condução autocrática do Estado já esgota canais de diálogo com membros do seu próprio partido, que reclamam do líder máximo nas páginas nacionais dos jornais, algo por si só sintomático do caos governamental. Só numa situação de extrema algazarra um representante do governo no congresso corre o risco de se indispor com o presidente em início de uma administração e passar quatro anos distante do poder.

A reforma da previdência, até agora a única agenda digna de nota do governo, corre perigo. Isto porque o próprio presidente não esconde seu parco amor pelo projeto. O negócio dele mesmo sempre foi falar de kit-gay, família, comunismo, escola sem partido, etc. E, com a reforma subindo no telhado, Jair Bolsonaro também entrará na linha direta de tiro. O impeachment de Dilma em 2016 trouxe o instituto para o horizonte das possibilidades da política brasileira.

Bolsonaro que tome cuidado. Ele perde o apoio popular rapidamente que esperava contar para emparedar o “sistema”, brinca com o mercado e usa seus pitbulls para zonar com a cara das lideranças da classe política. A fórmula é explosiva. Ele não cairá, não perderá espaço sem atirar. Sem apelar para mais o populismo, inclusive fiscal. Mas o Mourão, o próximo da vez, estará a espreita, agora com discurso do bem, neo-moderado e queridinho de todos. Cabe agora aguardar – com pessimismo – e conferir os próximos passos dos agentes envolvidos.

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