Cobrança de Ubers para que a governadora diminua o preço dos combustíveis é indicativo da força das fake news que o Governo não pode subestimar

SUBESTIMANDO A MENTIRA

A Petrobrás dita o preço dos combustíveis no Brasil. Esta afirmação é tão óbvia que é possível imaginar: ninguém vai acreditar nessas correntes que circulam no wahtsapp, que tentam responsabilizar o governo estadual pelas sucessivas elevações da gasolina e do diesel nos últimos meses. Ledo engano.

O Governo do RN vem sangrando de forma absolutamente desnecessária em decorrência das notícias falsas. A estratégia não é complicada. Quando algo de bom ocorre, a vitória é do presidente Jair Bolsonaro, base da oposição ao PT em terras potiguares. Quando erra – e isto acontece com muito mais frequência do que acerta -, todo mundo é responsável, menos o próprio. A gasolina chegou a R$ 5,30 na bomba? Culpa do PT de Fátima Bezerra. Os salários atrasados estão sendo colocados em dia pelo governo do RN? Parabéns para Jair Bolsonaro.

A MENTIRA SE FEZ VERDADE

Hoje, em uma manifestação absolutamente significativa do que foi dito acima, os ubers de Natal foram cobrar da governadora uma solução contra o aumento dos combustíveis. Querem que ela, conforme entrevista concedida a uma emissora de Tv de Natal, interfira nessa “coisa de aumentar preço toda semana”. Reclamaram também dos impostos.

Ora, o poder do governo do RN sobre o preço distribuído do insumo é zero. Foi o governo federal quem escolheu que o preço nacional obedeça a flutuação do petróleo no mercado internacional. Como ele se encontra em alta, a gente paga por aqui também.

E qual foi a última vez que os impostos estaduais foram elevados? O valor é o mesmo há muitos anos e a gestão atual não mexeu nele. A cobrança dos ubers leva a compreensão de que a aliquotas foram incrementadas recentemente, o que é falso.

A mentira se fez verdade. Situação idêntica vem ocorrendo no pagamento das folhas atrasadas de gestão anterior pelo governo do RN. Toda vez que mais um pedaço do passivo é posto em dia, circulam correntes alegando que foi Jair Bolsonaro quem pagou a dívida com os servidores.

Ao contrário do que diz o ditado popular, mentira não tem perna curta e avança a uma velocidade impressionante.

APRENDENDO A USAR A MENTIRA

Ora, o bolsonarismo profissional local aprendeu com seu líder maior a criar realidades paralelas. Os seus apoiadores andam de mãos dadas com as insinuações que vem lá de cima – de forma oficial e oficiosa.

A coisa funciona assim. O presidente Jair Bolsonaro concede a declaração – os governos estaduais também são responsáveis pela elevação do preço dos combustíveis e precisam colaborar. Perceba, caro leitor, o discurso é aberto e pode ser esmiuçado no lugar devido – o esgoto das redes sociais. Enquanto escuta a narrativa presidencial, a militância bolsonarista é bombardeada com falsas informações no facebook, no whatsapp, etc que complementam de forma sensacionalista, simplista e popularesca o discurso. Canais de massa locais supostamente jornalísticos se alinham a tal perspectiva e engrossam as falas, dando caráter regional a mentira. Vereadores e deputados estaduais da base não ficam de bochechas coradas e repetem tudo nos seus legislativos com a cara mais limpa, contribuindo para a capilarização. Com a mobilização de sentimentos poderosos – desejo, medo e ódio – a notícia falsa ganha tração.

ENFRENTANDO A MENTIRA

Ao que tudo indica, o governo estadual começa a perceber a importância do problema. Porém, ainda combate de forma tímida. Uma declaração de um secretário, por exemplo, é importante. Porém, só chega naquela pequena parcela da população super informada, que, se espalha notícia falsa, o faz por pura má fé interessada.

É preciso elaborar conteúdo e espalhar nos espaços em que o povo se encontra – as redes sociais. E com a linguagem clara e simples, que seja fácil de entender.

O enfrentamento deve ser por dois caminhos. As fontes oficiais devem ser contraditadas nas instâncias devidas – notas, pedidos de resposta e questionamentos diretos nas arenas de disputa. Usar o direito ao outro lado é um caminho. Não é possível deixar que apenas uma perspectiva – a falsa – seja posta na mesa. Além de apresentar a verdade, o propagador da mentira saberá que toda vez que empreender a sua estratégia, terá que atravessar o desconforto de ser desmentido com dados e fatos concretos. Sim, irão dizer que o PT é autoritário, etc. Mas é melhor enfrentar a mentira e ser acusado disso ou daquilo de forma retórica, do que deixar a coisa correr solta. Isto por si só já cria um certo comedimento coletivo.

O outro é municiar a militância com conteúdo simples, fácil e ágil e a do PT é enorme e anda sendo subaproveitada. Eles estão nos grupos e podem fazer o trabalho miúdo, mas não menos relevante.

A gestão atual tem muitos acertos e é vergonhoso para a direita do RN, que seja a esquerda a colocar a máquina em dia em oposição a todo um discurso sobre quem é responsável ou não em termos fiscais. Mas as fake news devem ser combatidas diretamente. Do contrário, o trabalho irá por água abaixo.

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