Contra o bolsonarismo, por uma avaliação realista da universidade

Em matéria de debate acadêmico, digamos assim, não pode ocorrer pudor. Não combina com a própria ciência e o papel a ser desempenhado pela universidade, apesar de ser regra corporativa silenciosa entre seus pares.

Há ampla investida anti-intelectualista e obscurantista do atual governo contra sua rede federal de ensino superior. O projeto em curso deve receber forte oposição em favor do racionalismo e da geração de conhecimento.

A questão é que, mesmo no atual cenário de ataque às universidades, não é realista estabelecer como ponto de pauta a tese de que há um lado do bem em confronto com o mal. É simplificador demais, além de falso. Não faz sentido imaginar o ambiente acadêmico como despido de erros, assédios, violências e pressões ilícitas, além de adoecedoras.

Serve à ideologia que diz combater aquele que faz o “cálculo político” de só discutir o assunto pelo aspecto da conveniência da corporação.

Há um processo mais amplo – e anterior ao bolsonarismo – de construção de uma paralisia institucional nas universidades no sentido de se desresponsabilizar sobre a resolução de seus conflitos internos. A judicialização da vida acadêmica apresenta tal pano de fundo.

O obscurantismo pseudo-científico, com livre trânsito acadêmico, nunca foi apenas algo externo à instituição, nem é exclusividade da era Bolsonaro. A geração de ressentimentos internos nunca foi devidamente administrada.

A onda anti-intelectualista não é nova e uma hora irá arrefecer. Só que os problemas concernentes ao ambiente acadêmico permanecerão com a consequente hipertrofia da administração das suas disputas via judiciário e tendo como terreno, não seus conselhos mas a imprensa, se não ocorrer a mudança institucional em prol da auto-governança.

A judicialização da vida acadêmica não tem interação com obscurantismo, nem com o bolsonarismo e continuará a crescer, caso não exista reação institucional no sentido de tomar as rédeas do processo. Vale aqui a velha máxima: quem não se governa, acaba sendo governado.

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