Doisladismo: guerra de decretos, de jalecos e da vacinação no RN são falácias que impedem o escrutínio da verdade e abrem brecha para o ataque contra o jornalismo profissional

DOISLADISMO

Diante das diferenças de concepção na forma de enfrentar o problema da pandemia no Rio Grande do Norte, há quem não queira escrutinar os acontecimentos e teime em enxergar a busca pela verdade como sinônimo de politização. Uma forma de fugir da necessidade de dizer quem se encontra certo – pelas fontes que utiliza, por exemplo – tem sido pela via do que se convencionou chamar de doisladismo. Tudo passou a ter dois lados e, na prática, os fatos foram esquecidos.

Imagine, caro leitor, que uma radicalização desse abandono da formação de uma narrativa legítima, pois que fincada na realidade, levaria a demonstração dos argumentos de que a terra pode ser redonda ou plana, dada a existência de quem nutra divergência em tal linha de raciocínio.

GUERRA DE JALECOS?

Dessa forma, a crítica de tratamentos com remédios já comprovadamente ineficazes e assim caracterizados pelas autoridades sanitárias nacionais, internacionais e cientistas virou um lado. O outro é quem segue receitando os medicamentos sem base na ciência.

A desproporção no uso de fontes legítimas é avassaladora e é impossível equiparar um parecer do centro de controle de doenças dos EUA, da agência de saúde europeia, da Anvisa ou uma recomendação para o mundo da Organização Mundial de Saúde com o relato de um médico ou de um político local. Tal conduta gera, sem exagero, desinformação e é nessa falsa dúvida que profissionais de saúde charlatões nadam de braçada.

GUERRA DE DECRETOS?

No caso da disputa de decretos entre o governo do RN e prefeitura do Natal, novamente a argumentação (ou a carência dela) apareceu. Mas o fato é que há jurisprudência consolidada vinda STF e do próprio TJ/RN, dando conta que vale o mais restritivo no combate à pandemia, isto é, o decreto do governo estadual. Se uma liminar monocrática foi dada por um desembargador em sentido contrário, este acontecimento não apaga a desproporção das fontes envolvidas.

Há um ponto objetivo fora da curva. O desembargador Cláudio Santos, que liberou a venda de bebidas alcoólicas em bares e restaurantes, atendendo ao pleito da prefeitura do Natal contra o decreto do governo do RN, alegou que não há estudos que comprovem que o ato interfira no andamento da pandemia. Além de não ter conhecimento técnico para tanto, o magistrado desconsiderou a própria jurisprudência estabelecida, fez ilações sobre um tema que não é de sua área e sem demonstrar a partir de que fontes chegou as suas conclusões sobre os perigos de contágio em espaços públicos. Os jornais dos últimos meses estão recheados de estudos apresentados pelos jornalistas divulgadores de ciência, dando conta de que a venda de bebidas alcoólicas em bares é sim fator importante do aumento do risco para se contrair o novo coronavírus. Tanto que em outros países há forte preocupação com tal conduta.

Não apenas a liminar contrariou uma jurisprudência clara, como também se estabeleceu em ilações sem pé na ciência. Apontar tais problemas não significa tomar posição política, mas dizer – ou ao menos tentar – a verdade.

QUEM ERROU NA VACINAÇÃO EM NATAL E MOSSORÓ?

Por fim, mais recentemente, outro problema se instalou com narrativa semelhante. A prefeitura do Natal e a de Mossoró ficaram sem a segunda dose da coronavac. Aproveitando-se do cenário de ausência de informação objetiva que o doisladismo efetivamente promove, as prefeituras culparam o governo do RN, que só recebe os imunizantes e faz o repasse aos poderes públicos municipais.

Nesse caso também não há dois lados. Há notas técnicas do ministério da saúde, do governo do RN e pedidos de vereadores municipais, enfatizando a necessidade de guardar a reserva técnica para a segunda dose. O erro veio das prefeituras, que acreditaram numa aceleração da chegada de mais vacinas sem indicadores para tanto. Avançaram sem lastro na realidade e a conta chegou.

Sem a cobrança direta que o doisladismo gera – uma espécie de passada de pano institucionalizada pelo jornalismo e que se espraia pela sociedade civil -, não será de espantar caso o revés torne a se repetir.

DOISLADISMO: UM TIRO NO PÉ DO JORNALISMO PROFISSIONAL

No livro “a morte da verdade”, o autor Michiko Kakutani enfatiza que há uma confusão entre a necessidade de apresentar versões dos agentes envolvidos sobre um dado acontecimento, com uma narrativa dos fatos como se eles tivessem dois ou mais lados.

Ele alega que é a partir desse falso relativismo que as notícias falsas se instalam, se aproveitando da perspectiva de que gravitam na esfera pública situada na imprensa lados sem qualquer legitimidade factual para tanto. E é aí que as correntes, se valendo da própria brecha aberta pelo próprio jornalismo profissional, ingressam deslegitimando o papel e a atividade de quem bem informa.

Em resumo, o praticante do doisladismo de hoje será aquele que terá de enfrentar uma desqualificação contra o seu trabalho amanhã.

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