E o número de recuperados?

O dado governista mais estranho da pandemia de coronavírus é o de “recuperados”. Alguns pontos.

Primeiro, é importante para um indivíduo se curar de uma doença. Porém, do ponto de vista social, só há recuperados caso existam doentes. E se há infectados em profusão, o indicativo é que falhamos no controle da pandemia.

Segundo, imagine como seria bizarro comemorar um alto número de recuperados do sarampo no país, que voltou a ter casos da doença circulando por aqui. Trata-se de uma patologia já praticamente erradicada em outras nações. Por isso, eles não tem curados de sarampo. Lá ninguém mais adoece. Pense que teríamos de comemorar milhares de curados da dengue ou do zika contra países que não sofrem com isso. Só faz sentido se quisermos normalizar o fracasso da política de combate à pandemia.

Terceiro, por essa lógica, estaríamos falando de uma política brasileira de sucesso contra, por exemplo, o Vietnã, com algumas centenas de casos de covid-19; e a Nova Zelandia, com poucas dezenas.

Quarto, já há estudos que demonstram a taxa de letalidade da covid-19. Tanto a Coreia do Sul, como os EUA, já demonstraram que 40% não tem sintomas, 40% apresentam sintomas gripais, 15% precisam de cuidados clínicos e 5% de UTI. No final, o 1% morre. Nossa taxa de letalidade é maior, cerca de 5%, porque não testamos os casos leves e assintomáticos. Saber o número de mortos acaba se transformando no indicador central de alastramento – e de falta de controle – do coronavírus e não o número de recuperados.

Por fim, imagina como seria um “jornalismo” por essa perspectiva. Manchetes: 99% dos natalenses não sofreram acidente de trânsito no fim de semana. Governo mantém 90% de sua arrecadação na crise. Ou 85% dos brasileiros sabem ler. E a quem interessa criar uma narrativa em que problemas inexistem?

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