EDITORIAL – O que a indústria das fake news no RN quer esconder de você

Há um problema político a ser resolvido por quem sofre com ele na disputa pelo poder nas terras de poti. O Governo do RN anuncia que vai pagar mais uma folha aberta do passado. Trata-se de uma vitória irremediável. Ora, tal situação expõe objetivamente uma diferença administrativa da gestão atual quando comparada as anteriores. Mas como reconhecer os erros pretéritos e a vitória do oponente não faz parte do metiê da fina arte de Maquiavel, a saída por aqui adotada tem sido a popularizada pelo bolsonarismo em voga – e me permita o uso do português claro -, ou seja, mentir. É fundamental apresentar a linha do tempo que nos trouxe até aqui para que o leitor compreenda o que a indústria das fake news local quer esconder, pelo que ela ganha razão de ser.

Para além da cortina de fumaça criada pelos operadores de falsidades no RN, o governo de Rosalba Ciarlini foi muito ruim. Foi naquele momento em que as contas públicas deterioraram de vez, os números negativos de segurança pública, que já eram crescentes, dispararam, a educação pública patinou para traz. O RN virou pária na região nordeste. Não nos esqueçamos ainda o modo como o marido da governadora, Carlos Augusto Rosado, criou uma espécie de reinado potiguar em que o diálogo com a sociedade civil e com os poderes foi cerceado. A denominada Rosa forjou uma administração de paralisia. O uso do fundo previdenciário virou consequência lógica.

A administração de Robinson Faria veio em seguida. Alguns acertos foram alcançados. Porém, Robinson foi incapaz de fazer aquilo que teria lhe dado sua reeleição – as reformas fiscais e administrativas necessárias para reequilibrar as contas públicas e a prestação dos serviços estatais. Nesse mesmo blog, advoguei desde 2015 em favor da reforma da previdência estadual, implementação de teto de gastos, venda de ativos e outras iniciativas. O Ceará e a Paraíba tomaram medidas duras e conseguiram atravessar a crise fiscal, reelegeram seus grupos políticos e promoveram investimentos próprios. O quadro herdado de Rosalba, de uma máquina que rodava gastando mais do que arrecadava, permaneceu, deixando assim quatro folhas abertas.

A ironia do destino foi que coube a um governo do PT, que quase sempre fez oposição no RN e bateu nas reformas, implementar novo marco previdenciário, um teto de gastos para as finanças públicas e outras transformações nessa perspectiva. Era óbvio que, uma vez no poder, Fátima Bezerra iria fazer o que fosse necessário para reequilibrar as contas públicas e normalizar os serviços. Discurso de oposição é uma coisa. Condução de um governo outra completamente distinta. Resultado: duas folhas abertas quitadas, queda nos números de violência, direção política pautada no diálogo com a sociedade civil e os poderes instituídos e a sinalização de uma máquina estatal que gira melhor, mesmo diante de uma terrível pandemia.

Ora, este é o cenário posto para quem respeita os fatos e trabalha com a publicação de indicadores que conseguirá sustentar sem medo de passar a vergonha – que alguns infelizmente não têm – amanhã de vir a ser corrigido.

Mas é da natureza das elites ansiarem o poder e o contexto apresentado acima torna a reeleição do atual governo uma consequência lógica, algo que quem sempre mandou no RN tenta evitar de todas as maneiras. A indústria das fake news instalada por aqui visa ocultar o passado em que tomou parte, para encaminhar um presente inexistente. Por fim, escolhas erradas na adesão de um presidente capaz de recusar a compra de vacinas em plena pandemia, criaram a estratégia para os ditos cujos.

Só resta mentir. Faltar com a verdade de uma forma e em uma intensidade em que uma dimensão paralela foi erguida. E no mundo fantástico de bobby, o passado administrativo era maravilhoso e o atual que paga duas folhas atrasadas é péssimo. É o planeta em que a cloroquina funciona contra o coronavírus e o presidente Jair Bolsonaro mandou 18 bilhões para o Estado para enfrentar a pandemia, ainda que o orçamento total do governo estadual em 2020 tenha sido de 13 bilhões.

A indústria das fake news não trabalha com fontes, mas linguagem ofensiva, falsa e sensacionalista. E, quando as instituições caracterizadamente desmontam as farsas alastradas, nova mentira é propagada e desonsidera-se mais uma vez a verdade. O método é não gerar margem para a reflexão ponderada. Aproveitando-se de quem trabalha com critérios mínimos de faticidade – você pode ter direito a opinião mas não aos fatos -, indústria das fake news labora no caos em que acontecimentos reais são suplantados por narrativas e debates substituídos por desqualificações pessoais e enquadramentos pejorativos no anonimato das redes sociais.

Mas cabe deixar aqui uma conclusão de otimismo apontada pelos acontecimentos como cada vez mais realista. O bolsonarismo na esfera pública irá passar. Esse modo de fazer política perde seguidores cotidianamente, conforme as pesquisas e por isso os adeptos de tal visão extremista de mundo radicalizam em seus ataques, mentiras e comportamentos contra indivíduos e instituições. E, quando forem completamente suplantados, os seus apoiadores virarão melancólica nota de rodapé da história.

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