Editorial – sobre o ataque contra às universidades e o problema de gestão da imagem da UFRN

EDITORIAL – SOBRE O ATAQUE CONTRA ÀS UNIVERSIDADES E O PROBLEMA DE GESTÃO DA IMAGEM DA UFRN

O anti-intelectualismo está bastante em voga. O ataque contra os intelectuais e suas pesquisas segue forte e, agora, com amplo patrocínio governamental. Mas há também perigo na visão intelectualista, aquela que se acha superior a do eleitor médio – o que pode ser uma mera avaliação legítima alicerçada em pressupostos -, e acredita ser capaz de tutelar bovinamente o eleitor médio. Um último ponto é autoritarismo ornado em base valorativa, cuidou de demonstrar Max Weber. Trata-se de uma provocação e o mundo livre das ideias não faz sentido sem elas.

Li no Facebook e no Twitter diversos professores e intelectuais, dizendo que não há gente nua nas universidades, nem acontece nada nesse sentido. De que não há “balbúrdia”. Enquanto isso, a rede bolsonarista local espalha prints e links de matérias sobre situações como essa e outras tantas em grupos de WhatsApp, no Facebook e no seu inbox. Só o auto-identificado intelectual, vítima das certezas escolásticas desprovidas de ponderações reflexivas que formou para si, é incapaz de perceber o problema.

Ora, aloprações ocorrem em todas as instituições. No caso da UFRN, ao contrário do que querem negar agora, não é diferente. Dizer que eventos, vamos dizer assim, infelizes nunca aconteceram nas dependências da universidade, é subestimar a inteligência das pessoas. Pior. Transmite sentimento corporativo e não é preciso ter diploma para notar quando um grupo se protege através da negação de fatos. O dado a ser mostrado é que os exemplos que circulam não fazem parte da rotina da UFRN (falarei mais dela especificamente por ser meu universo contextual). São situações bem isoladas. A esmagadora maioria lá presente estuda, trabalha e quer transformar sua vida pela educação.

Posso dizer que, sem nenhum tipo de puxa-saquismo, que a UFRN transformou – para melhor – a minha. Mas não é de bom tom suspender, para o bem da própria instituição, uma visão crítica e que fuja dos lugares comuns.

Nesse sentido, é preciso fazer outras perguntas inconvenientes. Por qual razão o ministro da educação de Bolsonaro lançou mão do argumento da “balbúrdia” para atacar as UFs? Porque ele sabe que tem aderência, tem base social. E essa base social foi formada pela ampla divulgação na imprensa e nas redes sociais de acontecimentos do passado.

Por dever de ofício, acompanho todo o noticiário local e na última segunda feira, por exemplo, as rádios que acessei, os blogs que abri traziam críticas e republicavam histórias sem resposta institucional “infelizes” contra a UFRN. Apesar de conter diversos setores bem estruturados nas áreas de comunicação, educação, etc, nunca existiu uma preocupação da universidade em argumentar contra isto. Os números da comunidade acadêmica do RN são colossais. Por que não contrapor tais narrativas com eles? Suspeito que é porque quem faz a UFRN se acha acima da imprensa local ou de um blogueiro bem acessado de interior. É o tal vício do intelectualismo citado acima.

A UFRN não faz gestão de sua marca diante de situações delicadas, não se preocupa em apresentar uma resposta sobre o que agora é um estigma com aderência social e que levará tempo para se desvencilhar. Até hoje não se sabe o que a UFRN fez contra a utilização de um ônibus seu, com membros do movimento sem terra, que foi até o porto de Natal pichar suas dependências. Não adianta imaginar que as pessoas irão esquecer o fato, pois elas não vão. Não adianta usar diplomas e uma posição de fala, ao estilo identitário, para não apresentar uma satisfação sobre isso. Só gerará ressentimento.

Lembro que previ por aqui e narrei sobre as consequências deletérias contra a imagem da UFRN, no momento em que um grupo de estudantes organizou a apresentação de um documentário sobre a vida de Olavo de Carvalho e foi atacado por gente representativa da instituição. Quando um professor fala em pluralismo na defesa da UFRN este exemplo vem à memória das pessoas. Como não existiu contraposição institucional na época, o discurso soa falacioso.

Sim, existem situações infelizes dentro da instituição, eventos de assédio e quem já estudou na UFRN presenciou ao longo de sua estadia por lá tais casos e outras tantas de militância.

Pausa para um parêntese. Os assédios na UFRN são narrados de modo que qualquer reação por parte do assediado seja desincentivada. As falas e relatos, antes de qualquer avaliação, são logo desacreditados pelos docentes. É um pouco como o louco goffmaniano. Via de regra, é a mesma lógica desse fenômeno tal como ele se processa nas igrejas. A maquinaria funciona para que ele não seja falado. Quem sofre com isso, escuta: se você denunciar, você nunca mais fará uma pós ou passará num concurso. Quando raramente alguém fala abertamente, será julgado pelos demais professores, inclusive da mesma área do denunciado e com quem ele convive. Em resumo, a ideia é que o assediado não toque no assunto. E, se tocar, perca.

Retorno. Não é nada verossímil dizer algo no sentido contrário. No que cabe à UFRN, a fatura de hoje é elevada, por um lado, por ela ter deixado essa narrativa se consolidar sem nenhum plano de contraposição de apresentação de si mesma. Por outro, porque ela não sabe agir contra o seu corporativismo. Talvez, daqui em diante, isto mude. Mas, para se concretizar, o cidadão comum deverá ser tratado como uma pessoa capaz de elaborar impressões e reter informações sobre o mundo que ele faz parte. Quem sabe a crise de hoje não trará esse efeito positivo amanhã?

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