Enquanto deixa as fronteiras abertas e não segue recomendação da anvisa pela cobrança de vacinação de viajantes, Bolsonaro questiona carnaval para afagar eleitorado evangélico

O modus operandi é sempre o mesmo. Um tema é “engordado” em grupos de whatsapp até que, depois de alastrado, o presidente Jair Bolsonaro comenta. O assunto do cancelamento do carnaval já circulava em grupos bolsonaristas há semanas. Ontem (25), Bolsonaro disse que, por ele, não faria o festejo. Alegação: pandemia.

Ora, vive no jardim da infância quem se satisfez com tal alegação. Isto porque, com a nova variante africana que está preocupando o planeta, Bolsonaro recusou o fechamento das fronteiras para os países em que já há casos. As demais nações do mundo tomaram a medida de precaução. Por fim, ele também não seguiu a recomendação da anvisa para que exista a cobrança nos aeroportos do comprovante de vacinação, para que alguém ingresse no Brasil, assim como ocorre nos EUA e na Europa. Vacinados, cabe lembrar, não apenas têm menor probabilidade de desenvolvimento da forma severa do Covid-19, como também transmitem menos.

Se a preocupação fosse de fato pandemia, o governo federal tomaria atitudes para o perigo do coronavírus hoje e não contra uma festa que se realizará daqui há 90 dias apenas. Cabe notar que o discurso do funcionamento da economia, em que o carnaval é mola propulsora da forte indústria do turismo, desaparece. Também some a defesa de uma liberdade incondicional contra o passaporte vacinal, no qual o Bolsonaro tem lutado contra e é uma ferramenta que vem sendo usada no mundo para fazer com que as pessoas se imunizem. Por fim, o Mito, como é chamado pelos seus fanáticos, passou os últimos anos, defendendo a abertura de tudo – de estádio futebol aos shoppings.

O que Bolsonaro quer, na verdade, é adular o eleitorado evangélico, que é por princípio contra a festa. Trata-se de uma forma de guardar esse público inclusive contra o possível avanço do agora pré-candidato à presidência Sérgio Moro. A luta entre os dois será em torno da pauta do lavajatismo trazida por Moro X a da guerra cultural carregada pelo presidente em busca da reeleição. Como o tema do combate à corrupção é meramente tópico, Bolsonaro tenderá levar a melhor ao falar de família, defender agenda regressiva contra mulheres, negros e LGBTs e sinalizar para mais defesa de armas e militarização do mundo. Não fora de próposito, o ex-ministro Ricardo Salles, em recente entrevista, soube ler bem o seu campo de disputa, chamando Moro de comunista, a favor das drogas e contra armas.

Há mais um ponto adicional. Com o discurso Bolsonaro eclipsa as críticas pela sua condução durante a pandemia e passar a chamar o “sistema” de hipócrita. A questão é que as variáveis estão aí e vai cair nesse discurso quem quiser.

Do Blog: mas e aí. Deve ocorrer carnaval? Ora, é uma pergunta a ser respondida por especialistas alicerçados em dados epidemiológicos. O que não faz sentido na perspectiva específica do tema, é defender tudo que gera o alastramento do vírus durante os próximos 90 dias (e antes deles) e chegar no reprovado “festejo da carne” pelos neopentecostais com postura de ocasião com viés eleitoral, como faz Bolsonaro.

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