Escola sem partido: a porta para o obscurantismo

ESCOLA SEM PARTIDO: A PORTA PARA O OBSCURANTISMO

O projeto “escola sem partido” tem vários problemas, vamos dizer assim. Não define o que danado significa “doutrinação”, até porque quem trabalha com ciência e o pensamento aberto não doutrina. Além disso, emprega a ideia de “pluralidade” de forma não plural, resvalando para um relativismo tosco em que confunde versões com fatos, jogando no lixo critérios de validação do conhecimento duramente construídos em prol da universalização do lugar de fala como parâmetro do debate científico. Fala-se assim: é preciso apresentar todos os lados. O lado da direita e o lado da esquerda. Ora, a ciência não se desenvolve a partir de “lados”, mas com critérios de validação racional dos acontecimentos. Ciência não é ponto de vista.

Mostrar o “lado” de extremistas pró-explicação da visão bíblica do mundo e colocá-lo em pé de igualdade com a teoria da evolução de Darwin, como o “outro lado”, não é pluralismo. É querer que explicações com critérios de validações distintas – uma baseada em fé e outra na construção científica – se equivalam. Isto implicará em jogar no lixo a formação dos alunos. Eles não desenvolverão a capacidade raciocínio científico e serão receptáculos de “versões”.

Algo pode ser dito, para citar outro exemplo, sobre a avaliação da ditadura militar no Brasil. A história não trabalha com “visões” de esquerda ou de direita, não labuta com esta politização extrema. A esquerda cometeu crimes naquela época? Sim, cometeu. Mas do ponto de vista factual, com farta documentação atestadora, foram os militares que deram golpe e passaram a usar o Estado – que não é um “lado”, mas o mantenedor da lei para todos – em prol dos seus interesses autoritários, sufocando, ao arrepio da democracia e da soberania popular, toda a sociedade.

Falar isso não é “doutrinar”, é apresentar fatos com conceitos robustos e empiria fundamentada.

Imagine se o ensino da história passasse a funcionar, conforme os ditames do “escola sem partido”. O professor seria obrigado a falar: olha, um grupo militar-civil de direita alega que fez uma revolução (e não deu um golpe) porque existia o fantasma do comunismo rondando o Brasil naquele momento. Eles dizem que nunca existiu tortura, mas o combate contra subversivos. Aí depois o professor retruca: mas outro grupo alega que ocorreu um golpe e tal. Bem, e os fatos entrariam aonde nisso tudo? É puro obscurantismo.

Numa situação mais esdrúxula. Imagina um professor de história ou de sociologia tendo que apresentar o “lado do nazismo”, com suas teorias xenófobas, higienistas e racistas por um viés; e de seus críticos de outro? Tudo em nome da “igualdade plural (sic)”?

Há excessos nas universidades ou escolas? Sim, instituições são atravessadas por problemas em seu cotidiano. E penso que há uma reação de adesão ressentida sincera por parte de muitos dos apoiadores do projeto chamado “escola sem partido”. As universidades, tomadas por um certo corporativismo interno, têm medo de abordar, sem não me toques, esse assunto.

Mas será pelo fortalecimento da verdadeira pluralidade de ideias e debate aberto, em que ideias são avaliadas e não pessoas, que o cenário será ainda mais propício para a ciência. Não será impedindo a reflexão e o pensamento autônomo que o contrário irá florescer.

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