Falso debate sobre liberdade é a porta de entrada para o ataque à vacinação no Brasil

Um evento bizarro aconteceu ontem (15) na praia de ponta negra. Negacionistas encheram o chão com cruzes de supostos mortos pelas vacinas contra covid. Os mortos? Indivíduos de países distantes que não permitem qualquer checagem. O jornalismo profissional não reportou tais óbitos, muito menos as agências sanitárias do Brasil e do mundo responsáveis pela vigilância epidemiológica e controle de vacinas e muito menos ainda os cientistas. Tratava-se de um cemitério fake news feito com imagens de whatsapp.

Cemitério fake news é exposto na praia de ponta negra por negacionistas antivacina

Chamados de antivacina e negacionistas, eles estrebucham. Não admitem a caracterização, pois alegam lutar apenas pela liberdade. Mas o “debate” sobre liberdade de tomar vacina ou não só existe caso tenhamos alguma dúvida sobre o benefício da imunização. Daí eles empreenderem diuturnamente contra os imunizantes com mentiras.

O cavalo de Tróia sobre liberdade vacinal nunca ocorreu no Brasil e por um motivo bastante simples. Uma vez aprovada, as autoridades sanitárias, o ministério da saúde e o presidente vinham à público e passavam uma mensagem clara – a imunização é boa. Se é bom não há o que tergiversar. É algo distinto do que atravessamos agora.

Se a básica verdade for dita sobre o ato de se imunizar a discussão sobre liberdade simplesmente desaparece. Os pontos “liberdade” e antivacinação andam de mãos dadas porque, para tentar legitimar o ato de escolher se proteger ou não contra a covid, é necessário inventar aspectos negativos. Daí espalharem que as vacinas são experimentais, que geram mortes, infartos, mal súbito. E, além disso, justificarem que tomando ou não a pessoa pega o vírus, como se vacinados e não vacinados tivessem o mesmo desenrolar clínico diante da doença. Como se vacinados transmitissem o vírus do mesmo jeito que não vacinados.

A lorota mais nova é dizer que as vacinas contra covid não imunizam porque a pessoa ainda pode ter a doença. Ora, além de ser menos grave, outras vacinas também tem a mesma lógica – a da gripe, a do sarampo, contra catapora etc. Outras também necessitam de reforço, tais como a da gripe, contra o tétano. Os negacionistas jogam com o desconhecimento.

A verborragia sobre liberdade é a porta de entrada para o negacionismo e a antivacinação. Basta observar, além da cena triste e lamentável em ponta negra, o discurso da médica Roberta Lacerda. As suas redes sociais estão lotadas de falsos números sobre mortes de vacinados, sobre falsas reações que levaram a óbito quem tomou a vacina contra covid, mas ela não quer ser chamada de antivacina. Inclusive, pressiona jornalistas com seu advogado para que a caracterização seja retirada do ar.

Tudo isto ocorre por um motivo. O presidente Jair Bolsonaro tenta manter sua base mais fiel, diante da crise econômica e da forma com que enfrentou pandemia, dando-lhes mais um aperitivo antissistema contra qual lutar. É no próprio governo federal que este falso debate nasce, o presidente é o principal garoto propaganda do direito de se expor ao vírus sem proteção e a respeito de ideias mentirosas sobre os imunizantes.

As consequências já são sentidas. Além de conhecer um movimento antivacinação, algo nunca antes visto no Brasil, a cobertura vacinal para sarampo, pólio etc já enfrentam quedas significativas. Trata-se de um projeto político que, para o bem da vida e da economia, deve ser derrotado.

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