Falsos debates e reforma da previdência

FALSOS DEBATES E REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Sério mesmo, pessoal. Uma coisa que acaba com a validade de qualquer debate público é o papo de que é preciso mostrar ambos os lados. As pesquisas de opinião utilizam de tal subterfúgio no efeito de imposição de problemática junto à esfera pública de maneira recorrente.
A coisa funciona assim: você coloca dois pontos de vista em debate, como se eles tivessem igual equivalência. O efeito é criar uma igualdade na avaliação entre um caminho plausível e bem fundamentado e outro completamente esdrúxulo.
Essa estratégia não é privilégio da direita, mas se encontra presente em todos os espectros ideológicos. Por exemplo, devemos debater o modelo, mas há amplas razões sobre a necessidade de fazer uma reforma da previdência. Uma forma de melar a discussão é colocar quem é favorável e contrário com o mesmo viés de equivalência.
Qual é o resultado? Enquanto um lado demonstra o inegável problema demográfico e como hoje toda a sociedade paga por uma previdência que drena recursos para o topo da pirâmide, o outro lado, sem argumentos factuais, apela para plantar a dúvida, mesmo que sem base lógica. A dúvida já é suficiente para embargar uma possível alteração.
Por exemplo:
1. Se os devedores da previdência pagassem, não existiria rombo. É verdade. O detalhe é que esta possibilidade não está dada. A maioria das empresas devedoras são massas falidas e nem existem mais. O próprio sistema trabalha com uma margem de inadimplência, tanto de pessoas jurídicas, como físicas em seus cálculos atuariais. Trazer o ponto sem os devidos esclarecimentos desvia o foco e engabela os desejosos pelo status quo.
2. Ou ainda: a reforma da previdência ataca os debaixo. Ora, é justamente o que acontece sem reforma. Sem pontos objetivos, o debatedor apela para confrontações morais, utilizando uma linguagem falsamente universal para proteger interesses particulares.
Com a liberdade de pensamento não há como e nem seria bom defender a proibição de qualquer fala. Mas é possível, através de avaliação racional, atribuir pesos aos raciocínios pelas capacidades que demonstram em apresentar uma realidade factível. É meio utópico. Só que, de repente, pode se constituir um bom horizonte normativo.

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