Jornalismo declaratório e ausência de produção de dados pelos entes envolvidos não ajudam a esclarecer o revés que vive o RN

Como venho dizendo, correndo o risco de ser mal compreendido, há dois problemas graves, para além dos mais diretos e objetivos, mais profundos que hipertrofiam à crise no RN.

Primeiro, a sociedade civil simplesmente não acompanha os rumos e políticas do poder público. Deste modo, ficamos a mercê do que o governante da hora irá fazer, sem que nos expressemos e cobremos. O cientista político Guillermo Odonnell chamou essa situação de democracia delegativa: numa sociedade com baixo associativismo, o eleitor elege e delega tudo ao governo, sem qualquer acompanhamento das políticas públicas.

Segundo, a esfera pública de debate norteriograndense é incipiente. Eu converso com as pessoas, até com aquelas portadoras de instrução formal superior, e elas não têm ideia da gravidade do comprometimento e deterioração do orçamento do RN. Pensam que há dinheiro sobrando e até escondido. Elas acham que o funcionalismo público estadual ganha pouco e é perseguido pelos gestores. Não fazem a menor ideia sobre o fato de que um servidor no RN recebe bem acima, em média, dos estados vizinhos.

Nesse quesito, o jornalismo praticado no RN, claro que com boas exceções, não ajuda a esclarecer o que passou para chegarmos até aqui e para onde o orçamento é canalizado ao ponto de não ter recursos para pagar os salários e serviços básicos.

No RN, impera o jornalismo de declaração. Isto é: o representante de um grupo político é ouvido. Depois que ele ataca alguém ou mesmo apenas apresenta seu ponto de vista, outro representante é procurado para que ele fale. Ora, escutar as diversas vozes diante da crise é muito importante. Só que há questões factuais, para além das versões, que não podem ser arrodeadas.

Isto tem consequências objetivas. O cidadão médio não tem informação suficiente sobre a dimensão da expansão da folha, da previdência, dos orçamentos dos poderes, das atividades de arrecadação e isenção no RN. Talvez exagero: não sabe que vivemos num estado pobre.

Há duas questões que corroboram para tal cenário na imprensa: o advento das redes sociais com sua velocidade cerceadora da produção de matérias mais densas e o enfraquecimento das redações, dado o empobrecimento dos veículos de comunicação.

Em face do contexto, a produção e apresentação de dados à sociedade deveria vir do governo e/ou de grupos de interesse. Mas o governo não está sendo feliz nessa ação. E no RN, os sindicatos, poderes e representações empresariais como a Fiern não demonstram números, uma perspectiva e suas agendas. Das universidades não vêm estudos. Por fim, termina que, os poucos que participam do debate, acabam opinando e até decidindo no escuro. Com isso, a formulação estratégica e a agenda de ações efetivadas não podem terminar bem.

Deixe um Comentário