MPF fez uso político do Twitter e alimentou redes bolsonaristas, afirmam pesquisadores da FGV

Da Folha de São Paulo

Um estudo realizado por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV) afirma que o Ministério Público Federal (MPF) fez uso político de sua conta no Twitter nos últimos anos —o que pode ter tido potencial para afetar a governabilidade no país e a democracia em momentos decisivos como o impeachment de Dilma Rousseff e as eleições de 2018.

AMOSTRA

A pesquisa examinou um universo de 37.041 tuítes publicados pelo MPF desde sua entrada na rede social, em 2011. Por meio de dois softwares, foi possível analisar o conteúdo das postagens e a rede de interação do órgão com outros usuários, a partir de recortes temporais relacionados ao noticiário político.

FOCO

O tema “corrupção” aparece em 61,5% dos tuítes e retuítes da conta. Os pesquisadores Rafael Rodrigues Viegas e Lucas Busani Xavier, que assinam o estudo, também identificaram que os picos de maior atividade do MPF no Twitter coincidiram com escândalos como o julgamento do Mensalão, em 2012, e com a divulgação de casos da Lava Jato.

LUPA

Ao focar na corrupção em detrimento de outras áreas —como saúde e educação—, o MPF forneceu à rede de apoiadores da Lava Jato e de Jair Bolsonaro informações contra seus inimigos políticos. Ou seja: ao usar a plataforma para se autopromover, a instituição alimentou um segmento de forma não intencional.

EXTREMO

Os pesquisadores observaram na rede de interação do MPF conexões com instituições e atores da sociedade “alinhados, em termos de valores e visão de mundo, com a extrema direita ideológica”. “Quando essas características formam uma bolha, elas sugerem a disseminação da informação como um eco”, diz o artigo.

TROPA

Exemplo disso é o mês de outubro de 2018, quando influenciadores bolsonaristas como o jornalista Alexandre Garcia e o blogueiro Allan dos Santos foram os perfis que mais se alimentaram de conteúdos do MPF, difundindo-os entre seus seguidores.

TROPA 2

Um segundo recorte feito em abril deste ano, após a anulação de condenações do ex-presidente Lula (PT) e a dissolução da força-tarefa da Lava Jato de Curitiba, mostra que o perfil da deputada bolsonarista Carla Zambelli (PSL-SP) no Twitter passou a ser a maior ponte entre o MPF e outros usuários da rede.

MIRA

O artigo ainda destaca que o sistema político brasileiro não pode ser operado sem coalizões partidárias, as quais em 2016 e em 2018 estavam atreladas aos alvos preferenciais de inquéritos e postagens do MPF —a quem é vedada atuação política. A conta do órgão no Twitter hoje é seguida por mais de 718 mil usuários.

TENDÊNCIA

“Esse estudo é inédito porque lida, no espaço das redes sociais, com questões já debatidas na literatura política de como o MPF mobilizou processos judiciais e de investigação, e de que maneira isso afetou o funcionamento do sistema polítco brasileiro e a democracia”, afirma Rafael Rodrigues Viegas.

O pesquisador Lucas Busani Xavier destaca que a burocracia não é neutra, como apontam autores da ciência política. “E como ela não é neutra, sua atuação não tem como ser diferente nas redes sociais”, segue.

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