O erro de Ivênio foi vampirizado em prol da defesa da agenda de segurança pública que nos trouxe até aqui

O comum é assistir alguém errar e receber críticas pela sua ação. Nos últimos dias foi possível acompanhar uma pessoa cometer uma conduta ilícita e ser alvo de ressentimento pelos seus acertos anteriores. O Rio Grande do Norte não perdoa quem ultrapassa a mediocridade habitual. Pior. Quem expõe com seu trabalho a alheia. Sim, estou falando de Ivênio Hermes.

Conheci Ivênio há muitos anos. Logo de cara, era possível perceber o desejo dele de obter reconhecimento com um conteúdo consistente. Escrevia artigos diariamente e já começava a gerar dados sobre violência. O RN sofria com um problema histórico na produção técnica de número sobre criminalidade, típico de uma sociedade civil pouco pujante em que o conhecimento aberto é sequestrado pelos mandatários. Ele – unido a outros bons profissionais – percebeu o vácuo e começou a desenvolver o saber que redundou no Observatório da Violência, o Obvio. A sua primeira incursão pública foi a demonstração de que a secretaria de segurança do RN, do então governo Rosalba, estava subestimando a quantificação de homicídios. Também deu declarações, já naquela época, dizendo que as facções se organizavam por aqui, algo que foi terminantemente negado pelo Governo do Estado e virou assunto tabu até o cenário ficar insofismável.

Ao demonstrar como as políticas de violência no Estado eram feitas, talvez sem saber, Ivênio ganhou muitos desafetos. Ora, estamos falando de um jeito de fazer a segurança pública, que é exatamente o mesmo desde sempre. A retórica do mata e esfola não é apenas um discurso. Foi o norte sobre como enfrentar a criminalidade em terras potiguares. Apesar dos ataques diários contra os direitos humanos, o dado concreto é que os DHs nunca passaram de uma nota de rodapé para aqueles elaboradores de ações de estado no setor, só servindo como inimigo imaginário construído para justificar o fracasso do poder público diante da questão.

O que o discurso do endurecimento visa esconder é que a sociedade norteriograndense sempre conviveu com uma visão de extermínio como substituta da legalidade – até com certo ufanismo lembra dos tempos de “mão branca” -, ausência de racionalidade no trato da violência, carência de transparência. Estado de direito é diariamente pintado como um estorvo. Quando ela se restringia às periferias, simplesmente ninguém ligava. Só que a conta chegou também para quem mora nas regiões nobres. Tal visão de segurança sempre foi preponderante e foi ela que nos trouxe até aqui. Ocorre que, ao invés de responsabilizados, os operadores do projeto contaram com a conivência estadual, ocupando posições de mando, ganhando mandatos nas câmaras municipais e na assembleia do estado. O fracasso foi coletivamente articulado e ninguém vai largar a mão de ninguém. Ivênio – juntamente com outros profissionais – mexeu nesse vespeiro.

Sim, após uma briga de vizinhos, ao atirar para cima dentro da casa de um cidadão, ele errou. Não há como dizer nada diferente e responderá pelo que fez. Só que foi possível ouvir nos últimos dias, em parte da esfera pública local, o uso dessa situação para enquadrar o que ele produziu de bom nos últimos anos. Piadinhas sobre o Observatório da violência e críticas a respeito do seu trabalho na construção de estatísticas confiáveis não deveriam ter relação com o ocorrido. Mas, ora, era óbvio que não iam deixar passar a oportunidade de deslegitimar o trabalho de quem demonstrou o que nos trouxe até aqui e quais as suas consequências. A política do CPF cancelado, que nada tem de nova, só aumentou a criminalidade e ceifou a vida de negros, jovens e pobres. O erro de Ivênio foi vampirizado em prol da defesa do jeito de fazer segurança pública de sempre. Tanto que nada foi dito sobre um dado básico da situação, até para blindar as ideias do baú das velharias aqui abordadas – existia ali uma arma e, conforme as estatísticas, quando elas não vão parar nas mãos de criminosos, são utilizadas majoritariamente com o fim empregado – brigas domésticas e de vizinhos.

O Rio Grande do Norte sofre de mal estar crônico com quem chega por aqui alicerçado numa pegada de mudança. Basta lembrar o que foi feito com Miguel Nicolelis. Ter abertos escolas, centros de pesquisa e posicionado o nosso pequeno estado no mapa da ciência do mundo não foram ações suficientes diante do insucesso da cooptação de suas iniciativas pelas elites locais. Ter apoiado o movimento #ForaMicarla foi imperdoável. Cabe repetir, para não existir dúvida, que Ivênio responda pelo que fez. Mas ao mesmo tempo que a sua produção em prol do RN melhor seja respeitada. Nessa produção também se encontram as mãos dos combativos e já falecidos Marcos Dionísio e Thadeu Brandão. Ela não merece a baixaria da qual está sendo objeto.

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