O golpe em curso

Ainda estamos presos a uma linguagem em que a análise de um golpe contra a democracia é imaginado em termos de produto explosivo – há uma quartelada e a democracia é derrubada. Porém, a literatura contemporânea da ciência política demonstra que hoje o evento não funciona assim. A morte da democracia acontece por um processo de erosão das instituições. É a perspectiva em curso no Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro lança toda a sua carga contra a justiça, entes de controle e contamina as forças policiais dos estados. Ele tem força para empreender um golpe clássico? Não. A maior parte da sociedade não aceitaria. Mas tal correlação de forças não deve nos tranquilizar. O estrago está sendo feito em diversas frentes.

Ainda que Bolsonaro seja retirado pelas urnas em 2022, as feridas demorarão a cicatrizar. O reestabelecimento das instituições, pela sua efetividade e legitimidade, demandará retirar, por exemplo, a Procuradoria Geral da República da inércia conivente com abusos, colocar militares de novo nos quartéis e mostrar aos policiais civis e militares que, se escolheram tais carreiras, não podem pensar em política, ainda mais de armas nas mãos.

Com os ataques recorrentes, é preciso resistir de forma também processual. Não há aqui uma fórmula pronta, mas um aviso: tratar Bolsonaro como blefe já nos custou 2018 e tudo que veio por consequência. De agora em diante devemos atuar de maneira distinta. Ele já mostrou do que é capaz.

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